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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Quase Pagã

Maria Amélia (in memoriam)


minha mãe nunca foi beata
mas rezava antes de dormir
baixinho, como deve ser

nunca fez proselitismo
missa no domingo pede cachimbo
(minha mãe nunca foi besta)

nunca foi santa, minha mãe
dançava, cantava, sorria
fazia sexo e gemia...

minha mãe nunca foi 
isso nem aquilo nem 
essa

onisciente onipresente onipotente

mamãe hoje é deusa
e livrou-me de todo deus
amém!



imagem: minha mãe, ainda solteira, bebendo água na fonte.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

nacos



carregava uns nacos de nuvem embaixo dos braços como se fossem pães que acabara de comprar na padaria.
passava dias com aqueles nacos imaginando chuvas e trovoadas. pendurava-os pelas portas, janelas, cabides, esperando algum tipo de precipitação mas a precipitação não vinha, a trovoada não vinha, o amor não vinha, nem aquela moça vinha.
então vinha de repente uma calma, uma espécie de iluminação, uma canção bonita vinha e umedecia seus sonhos despertos. seus olhos de chuva desabotoavam e ele sorria com os nacos de nuvem agora ensopados em suas mãos.




sexta-feira, 26 de abril de 2013

Fernando Pessoa + Blues Etílicos

LIBERDADE
    Ai que prazer
    não cumprir um dever.
    Ter um livro para ler
    e não o fazer!
    Ler é maçada,
    estudar é nada.
    O sol doira sem literatura.
    O rio corre bem ou mal,
    sem edição original.
    E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
    como tem tempo, não tem pressa...

    Livros são papéis pintados com tinta.
    Estudar é uma coisa em que está indistinta
    A distinção entre nada e coisa nenhuma.

    Quanto melhor é quando há bruma.
    Esperar por D. Sebastião,
    Quer venha ou não!

    Grande é a poesia, a bondade e as danças...
    Mas o melhor do mundo são as crianças,
    Flores, música, o luar, e o sol que peca
    Só quando, em vez de criar, seca.

    E mais do que isso
    É Jesus Cristo Dionísio,
    Que não sabia nada de finanças,
    Nem consta que tivesse biblioteca...

    Nota:  na última estrofe, permiti-me substituir Jesus Cristo por Dionísio porque acho que combina mais, bem mais!!! rsrs...

sábado, 6 de abril de 2013

a buceta (versão visual)




a buceta


a buceta voa
voa e pulsa
sonha o céu
o mar
o rio
convulsa
a buceta sonha passarinho
alcança a nuvem
sonha nuvem
lambuza de vento
e molha
a buceta chove e chupa
upa upa cavalinho!
a buceta pensa que é de vinho
sofre de chuva, a vulva
violeta e uva

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

adoro esta valsa pop erótico-amorosa ;)


No Fundo
(Arnaldo Antunes /  Edgard Scandurra)

em cima de cima assim e acima
sobre do alto e de alto a baixo debaixo
ao lado atrás e de lado a lado detrás e
sob acolá e além de ali depois pelo
centro entre de fora dentro na frente
e já de agora em frente e daqui
defronte através e rente

no fundo no fundo no fundo no fundo

em pé de repente perto envolvido em
torno envolvendo em volta e de volta
já e também no meio na mosca no alvo
na hora fora daqui mas a poucos pés pouco
a pouco aos pés através atrás de viés
e em e ainda mais e ainda agora e a
cada vez de uma vez ainda

no fundo no fundo no fundo no fundo

ante e antes de então e então durante
e enquanto aqui por enquanto adiante
avante acerca e portanto ao largo ao
redor e lá e nos arredores nos cantos
cá de passagem logo tangente longe
distante hoje de ontem onde depois de
onde pra onde onde

no mundo no mundo no mundo no mundo


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

trans.bordado


    eu vi
    a borda da lua                                                                                                                  
                             tran
                                    sbo 
                                         rda 
                                           ndo))
                                                 ((f
                                                  i))
                                                  ((o
                                                  s))
                                                   ((e o céu desabotoado
                                                      anoi
                                                      tecendo
                                                                 bordado

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

sábado, 8 de dezembro de 2012

museu de cera

ser é tudo que poderia 
ser plenitude
é tudo que é tudo
quietude 

zen

ser é tudo recém
sino pequenino 
de belém

ser é tudo 
que será mudo

no mundo
cera é tudo
que restará

:p

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

azul


há um blues tocando ao sul
de um azul da cor de seus anseios

há um sol tocando o céu

de seus gestos tão calejados

há um gesto quase macio 

no meio dessa encruzilhada

há um blues no seu olhar

um azul no céu, um sol ao sul

há um azul, turquesa e terno

na inquietação dos lábios

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

um cheiro


sinto falta de odores
talvez um jarro de flores
em minha mesinha, anulasse essa ausência

gosto de cheiro que carrega lembranças
mas me intriga não lembrar o teu...
preciso te cheirar mais um pouco
inventar um perfume carregado de ti
de nós, de nossa alcova

enquanto isso, leio Anna Akhmátova  
e contento-me (há dois dias)
com esse cheirinho de livro novo

sábado, 1 de dezembro de 2012

lembrando nós dois


hoje você bem que podia
me chamar pra sair, pra trepar
eu bem que podia
hoje amanhã depois
te roubar um beijo
te chamar pra sair
me exibir nua no espelho, trepar

você dizendo que eu me transformo
noutro ser quando dou meu lado b
você sem grana mas fazendo questão
de pagar o motel
(tão bobo esse seu lado machista)

hoje a gente bem que podia
mas você já voltou pra São Paulo
e eu te falei que vou torcer pra tudo dar certo

só não esqueça que a minha saudade lateja e molha, tá?


sexta-feira, 16 de novembro de 2012


não é nada que se possa chamar de lindo
é mais uma busca de algo que se perdeu
acho que nem nasceu

o sentimento em mim é verde
e o sentido não tem nome, nem cor

passo batom 
lápis nos olhos pra ampliar esse meu olhar
que é miúdo
e as unhas curtinhas são "vermelho love"

taí
se não fosse pelo vermelho 
eu adoeceria


suave


qualquer espaço
ao vento, ao mar
no ninho, na pedra
na pétala
é suporte pra desenhar
a vida, o verso 
o poema a mil
ao sopro da brisa leve 
que traga o sabor 
dos olhos 
de quem espreita
va ga ro sa men te




quinta-feira, 15 de novembro de 2012

a plumas penas


poesia se faz
botando a mão
junto do osso
com a mão e o torso

poesia se faz de graça
por obra e garça
no voo de plumas 
e penas

poesia se faz
apenas

segunda-feira, 5 de novembro de 2012