Mostrando postagens com marcador família. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador família. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Quase Pagã

Maria Amélia (in memoriam)


minha mãe nunca foi beata
mas rezava antes de dormir
baixinho, como deve ser

nunca fez proselitismo
missa no domingo pede cachimbo
(minha mãe nunca foi besta)

nunca foi santa, minha mãe
dançava, cantava, sorria
fazia sexo e gemia...

minha mãe nunca foi 
isso nem aquilo nem 
essa

onisciente onipresente onipotente

mamãe hoje é deusa
e livrou-me de todo deus
amém!



imagem: minha mãe, ainda solteira, bebendo água na fonte.


sexta-feira, 22 de março de 2013

camurça

Creio que tod@s concordam que "Camurça" não é um sobrenome muito comum. Lembro que, quando criança, @s amigunh@s  de escola achavam graça no nome e sempre lembravam do papel camurça, utilizado nas atividades escolares. Alguns diziam zoando: "teu pai fabrica papel camurça, é? quaquaquaquaquaqua...". E eu nem ligava.... Sempre gostei do meu sobrenome, associado a uma textura macia e aveludada. Na época nem sabia que camurça era um antílope que dá nome ao couro de bolsas e sapatos. Só descobri isso mais tarde e gostei ainda mais do sobrenome! Não pelas bolsas e sapatos, claro... mas por ser um bichinho símpatico e macio.

Meu pai dizia que Camurça podia ser um sobrenome dos cristãos-novos, que adotavam um nome de árvore ou animal para escapar da perseguição da inquisição durante a Idade Média. E ainda dizia, sempre que minha mãe falava com vaidade do brasão da família Sampaio (sobrenome de meu avô materno): "Os Camurças não tem brasão não, nossos ascendentes eram simples lavradores portugueses...". Dizia isso com aquele jeito irônico e cínico dele. E eu adorava isso [risos].

Pois bem, a única coisa que sei de concreto sobre camurça é que é um antílope, uma espécie de cabra-montesa encontrada nos Alpes e nos Balcãs. E pesquisando mais na web descobri  "O órix ou guelengue-do-deserto (Oryx gazella),um grande antílope africano, também chamado de gemsbok, nome de origem neerlandesa, que significa camurça"...

Quanto a minha origem, quem foram meus ascendentes mais remotos, de onde vim, pra onde vou, onde estou, QUEM SOU???... não sei nadinha, nadinha! Oh, dúvida cruel!! [risos].Meu lado existencialista é uma piada!

Olha as camurcinhas aí! 





terça-feira, 8 de janeiro de 2013

minha canequinha de inox


Quando era criança, sempre passava as férias escolares na casa de meus avós maternos, em Fortaleza. Certa vez, durante uma dessas férias, ganhei  de minha Vó Naida, uma canequinha de inox com meu nome gravado. Lembro que adorei! Achei o máximo! Nunca tivera nenhum objeto com meu nome. Fiquei me achando muito especial. Até que, ao visitar meus primos e primas, descobri que todos eles tinham uma caneca exatamente igual a minha, com seus nomes também gravados. E eu achando que era a única neta que tinha ganho aquele presente...

Bobagem, vaidade, meninice, não importa, fiquei um tanto decepcionada. Mas com o tempo passou, claro. Sempre gostei e cuidei com carinho da minha canequinha, coisa que alguns primos não faziam: as asas das canecas deles eram deformadas, provavelmente de tanto levar queda.


Quando entrei na adolescência abandonei a canequinha porque achava um tanto ridículo usar uma caneca de criança com meu nome gravado. Além disso tinha algo de burguês ou aristocrático naquela canequinha. E na adolescência eu idolatrava Che Guevara. Tinha lido uma biografia de El Che, contando a história da Revolução em Sierra Maestra e acreditei - juro - que só a revolução armada poderia salvar a humanidade do capitalismo. Ainda não sei como nos livraremos do capitalismo mas revolução armada já saiu,  há muito, dos meus planos...


Passaram-se os anos e minha canequinha permaneceu guardada - e abandonada - no armário da cozinha lá de casa. Mas quando saí pela primeira vez da casa de meus pais, não esqueci de levá-la comigo, seja pelo valor afetivo que representa ou por talvez intuir que um dia ela voltaria a ter utilidade.


Há dois dias resgatei minha canequinha do limbo no qual passara décadas. Mas não estou usando-a em casa. Levo-a em minha bolsa e quando entro em algum lugar que tem aqueles garrafões d'água, saco a bichinha e dispenso os copos plásticos (aonde quer que eu  vá, bebo água: Recife tem um calor dos infernos!).


E assim minha canequinha de inox burguesa adquiriu uma função social, sustentável, anti-consumo e, consequentemente, anti-capitalista. 


Carregada de valor afetivo, virou símbolo de meus pequenos gestos a favor de um mundo menos artificial, menos descartável, menos plástico!


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Amanda: a mais nova princesinha da família!





Sei que sou suspeitíssima, afinal sou uma tia supercoruja. Mas essa menina é a coisa mais linda de mô deus! O nome dela é Amanda, filha de uma das minhas primas mais queridas, Andrea, que mora há alguns anos nos Isteites (seu companheiro é estadunidense). Por isso já me considero tia dessa garota. Ainda não a conheço pessoalmente mas vou conhecer, ainda este ano! Amanda completou recentemente 2 aninhos e essas fotos são do seu aniversário. Tem muito mais, inclusive da decoração da festa, uma superprodução da Andrea.

Feliz Aniversário, Amandinha!!! E muitos anos de vida, princesa!!!
Beijos e cheiros da tia Sandra!


Segue a Ciranda da Bailarina (Chico Buarque), versão Adriana "Partimpim" Calcanhotto para a Amandinha :D






segunda-feira, 8 de março de 2010

uma menina, quase mulher

Não pensei em nada pra escrever nesse Dia da Mulher. Mas vi essas fotos no orkut de Maria Antônia, minha sobrinha e gostei. Ela tá "viajando" com o piercing (ou pírcingue, como se diz em Portugal) que fez na orelha. Amo essa Menina...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

da memória

Dona Maria tem 77 anos e já não consegue reter quase nada na memória: faz a mesma pergunta diversas vezes; não toma banho porque pensa que já tomou ou toma vários porque esquece que já tomou; adora sorvete mas não lembra que saboreou um há minutos atrás. Raquel, sua filha, a leva para passear de vez em quando mas ao voltar Dona Maria já nem se lembra que saíra de casa. Raquel se questiona sobre o sentido de levá-la para passear :

- De que vale uma manhã de lazer se ela não consegue lembrar depois? A vida tem sentido sem lembranças?

Naquela manhã de primavera Raquel levara sua mãe ao parque, pensou nela apreciando o viço das plantas e o colorido das flores. Aquela manhã Dona Maria já esquecera mas à tardinha cantava uma canção enquanto regava suas plantas na varanda. Raquel a observou comovida e sorriu: pensou que de alguma forma Dona Maria registrara o passeio, se não na memória, em seu corpo, na memória dos sentidos.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

"un abrazo, amigo"

O desenho acima (lindo, não?) é de um cartão que Seu Maurício, meu pai, recebeu de cinco amigos lá pelo idos do século XX. Encontramos (eu e Sílvia, minha irmã) enquanto remexíamos nos papéis e fotos que ele guardava. Fizemos isso sábado passado na intenção de procurar material, principalmente fotos, para um grupo de amigos de trabalho de meu pai que estão pretendendo homenageá-lo. E olha só a coincidência: neste último sábado, 18, fez exatamente um ano que meu pai foi sepultado. Mas não há melancolia nisso, saudade sim mas sem tristeza. Na verdade até nos divertimos e descobrimos mais sobre Seu Maurício, como: cartinhas e cartões de aniversário e dos dias dos pais que a gente deu pra ele quando criança e que ele guardou com carinho; uma tira do Angeli com o personagem "O Velho Cartunista" que xinga e cospe nas pessoas da janela de seu apartamento (Seu Maurício tinha humor, um tanto sarcástico, bem verdade); descobrimos ainda que na década de 60 meu pai realizou trabalho de extensão com praieiros da Praia do Poço, na Paraíba; e encontramos um cordel contando a história da extensão rural na Paraíba (pra quem não sabe, meu pai foi engenheiro agrônomo) onde aparece o nome dele em um dos versos. Pois é, há um ano meu velho partiu e a gente ainda está descobrindo ele...

Mas voltando ao início, desconheço os cinco amigos que lhe ofereceram aquele cartão. Decerto devem ser pessoas sensíveis e creio que não são brasileiros, digo isso por causa da dedicatória: "Con cariño al amigo BRASILEIRO". Ainda no cartão tem impressa uma mensagem em espanhol falando sobre justiça, solidariedade, liberdade e dignidade. E o cartão é de Navidad, talvez uma comuna chilena (pesquisei na internet).

Sei que não devo tirar conclusões apressadas mas tudo leva a crer que devem ser amigos de algum outro país da América Latina. Chilenos? Meu pai viajou um bocado, a trabalho, por vários países latino-americanos. Certa vez até trouxe pra mim uma boneca de tricô, na verdade uma indiazinha peruana ou boliviana ou colombiana, não sei ao certo. É a única boneca da qual não me desfiz... Às vezes tenho a impressão - quase certeza - que vem daí meu carinho e empatia pelos povos andinos, carinho que se estende aos demais povos da América Latina, oprimidos pelo "mundo livre".

Dedico, pois, esta postagem, com um grande abraço a nuestros hermanos y hermanas, e a Seu Maurício, meu pai que, sem perceber, despertou em mim essa sensibilidade quando eu era apenas una niña.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

faltou soprar mais uma velinha...

Em abril deste ano meu pai faleceu.
Hoje, se estivesse vivo, estaria completando 80 primaveras.

Salve, Seu Maurício! Salve!
A saudade é grande...


Ah, a foto acima é do Menino Mauricinho.

terça-feira, 29 de abril de 2008

sobre meu pai

Eu só queria falar um pouco sobre esse homem, esse cearense, aparentemente simples. Esse homem que gostava do mato, de engenho de cana e adorava chupar rapadura. Seu Maurício tinha alma de matuto sem ser matuto (papai era capaz de conversar sobre qualquer assunto). Foi engenheiro agrônomo e amava a natureza e os animais. Quando criança, ele me levava para o parque de exposição de animais e me falava sobre o gado, os eqüinos, os caprinos... Meu pai também adorava os filmes de Mazaropi, morria de rir. E também gostava de uma piada safada... Mas Seu Maurício também era um homem sério, reto, honesto, principalmente no trabalho.

Na Paraíba, nos anos 60, foi Secretário de Agricultura e trabalhou sempre a favor do pequeno agricultor. Certa vez ganhou de presente um cavalo (provavelmente de um latifundiário). Papai adorava cavalos mas não aceitou o presente, afinal ele sabia que ninguém dá um cavalo de presente em troca de nada.

No Rio de Janeiro foi diretor da Abicar (depois Emater), instituição que oferecia assistência e crédito rural ao pequeno agricultor. Mas no início da década de 70, em plena ditadura, o governo proibiu a concessão de crédito, permitindo apenas a assistência. Mas ora, como dar assistência sem dar os meios ao agricultor? Diante dessa situação meu pai pediu demissão.

Em Recife Seu Maurício criou a UNO (União Nordestina de Assistência a Pequenas Organizações), instituição pioneira no mundo (não, não estou exagerando, é verdade) com o programa de microcrédito. A UNO foi o exemplo que o Prêmio Nobel da Paz de 2006, Muhammed Yunus conheceu para criar o seu programa de microcrédito em Bangladesh.
Vocês nem imaginam como isso me enche de orgulho. Mas o que realmente me faz ter uma grande admiração (e amor, evidentemente) pelo Seu Maurício é uma outra história.

Na década de oitenta, com a anistia e o retorno dos exilados políticos, Maria Áurea, na época diretora geral da UNO, perguntou ao meu pai, superintendente da instituição, se ele receberia um grupo de ex-exilados que estavam desempregados. Seu Maurício disse que receberia sim e que depois de entrevistá-los, os que demonstrassem competência seriam contratados, tornando-se funcionários da UNO. Com isto, a cada dia Maria Áurea trazia um novo nome ao Seu Maurício e ele perguntava: “È mais um daqueles?”. Maria Áurea dizia que sim e Seu Maurício entrevistava o candidato. Meu pai nunca se disse de esquerda, muito menos de direita. Agia de acordo com seus próprios princípios. Fazia aquilo que achava correto e apesar de ser muito racional também pensava com o coração. O fato é que no final Seu Maurício ou Dr. Camurça acabou contratando todos aqueles ex-exilados e podem crer, alguns deles eram completamente incompetentes (risos).

É tudo. Poderia escrever mais, no entanto acho que escrevi o suficiente sobre meu pai para que vocês conheçam um pouco desse homem que era meio moleque, gostava de piadas maliciosas e irônicas, um homem empreendedor, muito inteligente mas modesto, de bom caráter, honesto... Mas o que eu queria dizer mesmo, o que realmente importa é que Seu Maurício sabia amar as pessoas.


meu pai e eu
PS: Amigos e amigas estou sem computador em casa, agora estou morando com minha mãe, Dona Amélia, que tá precisando de companhia e força até mais que eu e minhas irmãs. Por isso perdoem-me por não estar fazendo visitas aos seus blogues. Um beijo e um abraço carinhoso em cada um/uma de vocês. Té qualquer dia. E grata, muito grata pela força.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Maurício Camurça (13/11/1928 - 17/04/2008)

Ontem à tarde Seu Maurício, enfim, descansou... Hoje, ao meio-dia, foi sepultado e homenageado por amigos e amigas de trabalho. Seu Camurça foi /é uma pessoa muito amada e admirada por muitos, não só pela esposa, filhas, neto, netas e outros parentes. Eu gostaria de falar mais um pouco mas acho que vai ficar pra outra vez.

PS1: pra quem não sabe Seu Maurício é meu pai. Ele sofria de Mal de Alzheimer há 8 anos e nos últimos 7 meses estava sobrevivendo em casa, em cima da cama, levando uma vida praticamente vegetativa. Agora ele está com os anjos, ou virou um anjo...
PS2: sou eu e ele na foto acima.

Abraços.

Ah, apesar da emoção ser um bocado forte (nem sei por quanto tempo essa dor vai doer) gostaria de dizer umas palavras que refletem a pessoa maravilhosa que meu pai foi. Quando criança, se perguntávamos a meu pai se podíamos fazer isso ou aquilo, ele respondia: "quando a gente quer fazer uma coisa a gente não pede permissão, a gente FAZ".

Mais abraços.

sábado, 26 de janeiro de 2008

sobrinha, carnaval e punk rock

De vez em quando saio nos finais de semana com minha sobrinha de 12 anos, Maria Antônia. Ela fica toda animada, faceira como é, adora passear, e logo pergunta: “a gente vai de quê, tia?” Pergunta já sabendo a resposta, pois não tenho carro, só ando de ônibus, táxis só em situação de emergência, ou quando volto tarde da noite. E eu respondo: “De 'busu', claro”. E ela sorri, divertindo-se com minha resposta.

Hoje à tarde fomos pro Bairro do Recife, para quem não conhece, é o bairro onde nasceu Recife, pertinho do porto, e onde, no carnaval, rola muito frevo, maracatu, samba, coco de roda, ciranda, xous de roque, etc e tal. Ela, minha sobrinha, estava doidinha pra ver o agito do carnaval que já tá frevendo por aqui mas como fomos muito cedo, por volta das cinco, não estava rolando nada, ainda. Mas já tem muito turista na cidade, muita gente circulando e algumas batucadas de samba e maracatu. Perguntei a ela aonde queria ir e ela me disse: “Vamos pro Marco Zero, tia”. E lá fomos nós pro Marco Zero, um grande pátio aberto onde acontecem muitas apresentações no carnaval e que fica de frente pro mar. Compramos pipoca e sentamos na mureta de granito olhando para o mar e seus arrecifes. Uma turista se aproximou, sentou ao meu lado e vendo vários barquinhos levando gente para os arrecifes, perguntou:

“O que é que tem do outro lado?”
“Tem várias esculturas de um famoso artista plástico daqui, Francisco Brennand, e mais adiante, à direita, tem o Bar do Dique, muito legal”.
“Ah.... mas aqui também é um porto?”
“Não, não, os navios que chegam aqui atracam mais à direita, porque aqui não tem profundidade suficiente pra navios de grande calado, inclusive este espaço de exposição aqui ao lado foi projetado para ser o terminal de passageiros, caso navios aportassem aqui. Faltou melhor planejamento do governo”.

A moça me ouviu com muita atenção, pouco depois agradeceu as informações e foi embora. Eu e Antônia comemos a pipoca todinha e fomos andar pelo bairro, fomos parar na Livraria Cultura, juntinho do Paço Alfândega, fui dar uma olhada nos lançamentos e minha sobrinha foi direto ouvir cds, o que fiz um pouco depois. Apesar de ouvir boa música em casa, infelizmente ela também ouve e gosta, o que é pior, de muita coisa ruim, essas baboseiras que predominam nas rádios, atualmente. Não vou nem dizer o quê, porque algum leitor ou leitora pode gostar e não quero magoar ninguém.


Aproveitei a oportunidade pra lhe mostrar alguns sons, que considero de qualidade e que ela nunca ouvira: música cubana, mexicana, até da Turquia. Pois não é que ela curtiu, ela gosta de dançar e eram todas músicas ótimas pra mexer o esqueleto e rebolar. E ela ficava num fone de ouvido a uns dois metros de distância de mim e eu fazia gestos com a mão dizendo pra ela ouvir a terceira faixa e ela ouvia e fazia o gesto de "jóia”. E eu rebolava e ela rebolava e a gente ria junto. Ela fez sinal pra eu olhar pra um cara com uns dreads enormes e lindos! Ela sabe o quanto eu gosto de dreads. E eu reconheci que era Cannibal, vocalista da banda Devotos, da periferia do Recife mas na hora não comentei quem era ele. Antônia sentiu vontade de tomar sorvete e subimos pro primeiro andar da livraria, nos deliciamos com a guloseima e depois saímos. Enquanto atravessávamos a ponte Maurício de Nassau ela disse toda manhosa:

“Ô, tia, vamos pedir pro papai vir buscar a gente de carro”
“De jeito nenhum, viemos de busu e vamos voltar de busu”

Queria que ela aprendesse a andar por essa cidade à pé, porque só se conhece verdadeiramente uma cidade andando à pé. E alguém que não atravessa as pontes do Recife andando não pode se considerar recifense. Depois da ponte, logo alcançamos a parada de ônibus e não tardou pro nosso busu passar. A caminho de casa fomos conversando e então comentei com ela que aquele cara de dreads era vocalista de um banda de roque do Alto José do Pinho, junto do Morro da Conceição, periferia do Recife. Ela, evidentemente, nunca tinha ouvido falar da banda e eu lhe disse que era uma banda de punk rock e que tinha uma música do primeiro disco deles que dizia: “punkrockhardcore sabe onde é que faz, lá no Alto Zé do Pinho, é do caralho!” Ela adorou a música, principalmente a parte final: “É do caralho!” Criança adora falar essas coisas, falar palavrão, fala com um prazer enorme. E quando descemos do ônibus ela foi até em casa cantando a música. Prometi a ela que quando ela fosse um pouco mais velha a levaria para um xou da Devotos, coisa que há muito tempo não faço porque só vai a moçada dos trinta anos pra baixo. Mas acho que nunca vou deixar de curtir cantar e ouvir aquele...”punkrockhardcore sabe onde é que faz, lá no Alto Zé do Pinho...” e o público respondendo com o maior tesão: “...É DO CARALHO!!!”

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Ô, Coisa Doida!


Essa dupla que vocês estão vendo é eu e meu pai. Ops, me desculpem! Não, não troquei a foto, vocês não conseguem visualizar meu pai porque ele está oculto, por detrás da câmara fotográfica. Meu pai sempre gostou de fotografar as filhas, assim, meio em flagrante (ah, que bobagem, quase todo pai faz isso, né?). Mas acho essa foto bem bacana.

Meu pai foi engenheiro agrônomo. Na década de 60 foi Secretário de Agricultura na Paraíba. Realizou um excelente trabalho neste cargo, seja no interior ou na capital (no início da ditadura militar, putz!). Meu pai nunca foi apaixonado por política, ele apenas queria realizar seu trabalho em paz. Foi um técnico muito respeitável, até hoje as pessoas lembram dele com admiração. Conversava sobre qualquer assunto, foi um homem que gostava de saber, de aprender e também ensinar. Nunca se declarou um socialista mas sempre votou na esquerda, defendendo a igualdade e a justiça. Seus amores eram: minha mãe , suas filhas, o interior e o mato. Preferia o belo da natureza ao belo da arte. Não devo a ele meu amor à música, às artes e à poesia – isso aprendi com minha mãe, que aprendeu com seu pai, meu Vô João – no entanto devo a ele o aprendizado da franqueza, da retidão, do amor à natureza, da contemplação e da indignação diante das injustiças sociais.

Estou falando com o verbo no passado não porque meu pai esteja morto, ele ainda vive mas tem Mal de Alzheimer. Atualmente não distingue uma samambaia de uma bromélia ou uma jibóia. Gostaria de poder conversar com ele sobre a transposição do Rio São Francisco, a questão da Amazônia, sobre construção de cisternas no sertão, sobre o governo Lula, mas isso é impossível: apesar de vivo já o perdi ...

Meu pai também adorava/adora crianças e ainda hoje, mesmo demente, quando vê uma, diz: Ô coisa doida! Diz isso com a maior ternura. E às vezes quando me vê também diz: Ô coisa doida! Eu acho graça e fico pensando se, nesses momentos, ele se lembra daquela menina que ele tanto amava fotografar e levava para a praia, ensinava a boiar e nadar e depois, na beira-mar, brincava de construir castelos de areia...

PS: Essa praia onde estou na foto é no Rio de Janeiro. Vivemos lá (eu, meus pais e minhas duas irmãs) entre 1969 e 1974, mas não sei qual é a praia, provavelmente era a praia do Flamengo, bairro onde residimos.