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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

um certo jeito de ouvir música


Sei que o ser humano é dotado da capacidade de realizar várias atividades ao mesmo tempo. Quanto a mim, devo ter nascido com algum defeito de fabricação. Só faço uma coisa de cada vez. O "tudo ao mesmo tempo agora" não funciona comigo. Foi pensando nesta minha, digamos, limitação que resolvi falar sobre minha dificuldade em escutar música realizando outras tarefas, e o meu modo, o jeito que eu mais gosto, de fazê-lo que é sacrificado pela falta de tempo do dia-a-dia.

Não consigo, por exemplo, como fazem algumas (ou muitas) pessoas, ler, estudar e trabalhar ouvindo música. Preciso de silêncio para realizar essas tarefas. Por isso costumo dizer que não gosto de ouvir música como fundo musical para outras atividades. Fundo musical só no cinema, teatro, etc. Mas gosto de realizar trabalhos manuais e domésticos, como desenhar, cozinhar e lavar louça, ouvindo música. Mas em trabalho intelectual, jamais.

Já visitei alguns blogues que começam a tocar música assim que a gente entra neles. Acho esses blogues complicados (nada contra, a dificuldade é minha) porque como a música exerce sobre mim um poder de atração maior que a leitura, naturalmente vou prestar mais atenção a ela, se for de qualidade, claro, caso contrário nem valerá tentar ler a postagem...

Outra modernidade a qual não me adequo é o tal aparelhinho de mp3. Pra quem, na década de 80, já não se adaptava ao walkman, isso era mais do que previsível... Não gosto de andar na rua com fone de ouvido, me sinto alienada da cidade e seus sons. Alguns, de fato, são desagradáveis mas com o fone de ouvido desvio facilmente a atenção das coisas que acontecem ao meu redor, ou seja, é a mesma velha história: nem leio a cidade direito, nem ouço a música do meu jeito.

Enfim, gosto mesmo é de parar tudo para escutar música, dar atenção exclusiva a ela, escutá-la com calma, com tempo. Gosto de prestar atenção aos sons de cada instrumento, identificar o som do baixo, lá no fundo, e descobrir sonoridades mais sutis. Gosto de escutar música de preferência em casa, deitada na cama, vagarosamente, até perder a noção das horas, feito quando a gente namora.


Imagem: Openphoto


domingo, 23 de maio de 2010

Diário de uma ACS

Segunda-feira, oito horas da manhã, chuvinha fina. Avisto Ivanilson, meu colega ACS, vindo em minha direção em uma rua qualquer do bairro da Mustardinha. Ele acena pra mim fazendo continência com a mão direita. Eu retribuo o gesto e nós dois sorrimos. Conversamos um pouco e em seguida cada qual segue seu rumo ao próximo setor censitário que devemos cobrir.

Era apenas mais um dia na rotina exaustiva dos agentes censitários supervisores (ACS). Naquela segunda-feira iniciava meu oitavo setor, o maior até então, com 17 quadras que nem sempre correspondem a realidade encontrada em campo. Meu PDA (personal digital assistent) já estava em mãos pronto pra registrar todos os endereços residenciais e não residenciais, além de atualizar os mapas com o auxílio de GPS, e registrar as características do entorno: pavimentação, calçamento, iluminação, arborização, acúmulo de lixo, esgoto a céu aberto... Trabalho necessário mas repetitivo e enfadonho. E o calor do Recife continua infernal, apesar de estarmos no outono.

Chego em casa à tardinha, cansada, pernas cansadas e o corpo quente de tanto sol. Queria encontrar ânimo pra escrever um poema erótico, um conto amoroso mas não sinto tesão... Lembro Rilke em seu belo "Cartas a um Jovem Poeta" aconselhando-o a escrever sobre seu cotidiano mesmo que lhe pareça pobre. E na impossibilidade de escrever sobre o amor, decido escrever sobre o meu cotidiano atual, afinal todo cotidiano, o cotidiano honesto, tem sua dignidade.

Muitas imagens ocorrem em minha mente e encontrar, eventualmente, Ivanilson, é um alento pois aplaca em certa medida a solidão do trabalho de rua. Começo a escrever e já me encontro na terceira transcrição com papel e caneta em punho. Lembro Walter Benjamin em seu admirável "Rua de Mão Única" falando alguma coisa sobre transcrição de textos, que aquele que transcreve um texto o conhece melhor do que aquele que apenas o lê, como quem percorre uma estrada a conhece melhor que aquele que a sobrevoa. Transcrevo-me para descobrir os atalhos do meu texto - e do meu pensamento - e percorrer o melhor caminho. Penso nas ruas e becos que percorri mais de uma vez no bairro da Mustardinha. E em suas entrelinhas encontrei pessoas várias: gente curiosa, desconfiada, simpática, antipática, agressiva, doce, amarga... Encontrei dona de casa com suas panelas no fogo sem tempo de me atender. Encontrei senhora solítária que quase agradece por alguém ter tocado em sua porta. Encontrei pessoas sentadas em cadeiras nas calçadas jogando conversa fora. Encontrei um idoso que, se desse corda, contava a história do bairro todinha. Encontrei crianças jogando bola ou empinando papagaio. Encontrei crentes em cultos evangélicos. Encontrei pessoas em ofícios diversos e adolescentes ouvindo rap ou Chico Science. São muitas as vidas, humores e idiossincrasias encontradas entre/e nas vias/veias do bairro que, assim como a cidade, é mais que um mapa a ser llido. O bairro, assim como a cidade, deve ser percorrido, de preferência a pé. Pois só assim, a pé, se conhece não apenas seu corpo mas também sua alma.

Acho que já posso dizer que conheço o bairro da Mustardinha em corpo e alma. É só um pedacinho da cidade. Mas se a Mustardinha está contida no Recife, o Recife, pelo menos em parte, também está contido na Mustardinha. Poderia contar algumas histórias como quando uma menina, muito faceira, me acompanhou no trabalho por algumas ruas. Ou como encontrei um marceneiro ouvindo música bleque dos anos 60/70, para minha surpresa e satisfação. Ou ainda da minha alegria ao descobrir a sede do famoso Clube Carnavalesco Misto dos Lenhadores.

Muitas são as lembranças. Muitos são os encontros ao longo do dia, a cada dia. Escrevo o que posso ou o que tenho vontade de escrever. E ainda que meus sonhos de amor estejam engessados, tenho minha cidade, tenho minha realidade: meu cotidiano. Estou vivendo percorrendo ruas, encontrando gentes. Fecho os olhos. Acho que quase posso sentir os odores e sons da Mustardinha. E acho que, pelo menos em parte, em alguns momentos, também me encontrei ali.

terça-feira, 12 de maio de 2009

pra tocar no rádio e no coração


Lá em casa, desde quando eu era pequenininha, sempre se ouviu muita música. Rolava de tudo: samba, forró, Roberto Carlos, Beatles, Secos & Molhados, Novos Baianos e até Elton John. Quando não tinha um disco tocando na radiola, o rádio estava sempre ligado. E foi nas rádios que eu conheci o estilo musical que mais mexeu (ainda mexe) com minhas emoções e libido.

Era início da década de 80. Eu tinha por volta dos 12 aninhos. Estava despertando para o romantismo e o erotismo - não necessariamente nesta ordem - ouvindo black music, estilo que foi paixão à primeira audição. Não me lembro quem ouvi primeiro, se Marvin Gaye ou Michael Jackson, se Diana Ross ou Earth, Wind and Fire, se funk, soul ou dance music. Não importa, estava tudo ali, nas entrelinhas, implícito - às vezes explícito - nas letras ou no groove das canções, toda aquela libidinagem deliciosa, seja em "Sexual Healing" do maravilhoso Marvin Gaye; ou na voz grave daquele negão muito macho, o Barry White; e numa vasta gama de cantores e cantoras black, grávidos de amor, alegria e sensualidade, que me impressionaram e impressionam... Não à toa esse estilo me fez mulher antes mesmo que qualquer homem me tomasse em seus braços. Coincidentemente ou não, foi por volta daquela idade que descobri a masturbação.

Agora eu fico pensando: Será que hoje eu escreveria poemas eróticos se não tivesse me iniciado na música bleque? Será que teria inventado versos como "até fuder macio" se um dia não tivesse ouvido aquela bela canção da Roberta Flack, "Killing me Softly"? Será? Sei não... Sei não...



PS: Quem quiser ouvir música seleta, de todos os estilos, do mundo inteiro, basta clicar aqui ó: http://www.zinedopirata.blogspot.com. Lá tem uma uébi-rádio criada pelo zineiro, jornalista e escritor Pirata Z. Esse rapaz sabe tudo ou, pelo menos, quase tudo de música.


Grata às meninas e aos meninos, de todas as idades, que têm visitado o meu refúgio.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

"un abrazo, amigo"

O desenho acima (lindo, não?) é de um cartão que Seu Maurício, meu pai, recebeu de cinco amigos lá pelo idos do século XX. Encontramos (eu e Sílvia, minha irmã) enquanto remexíamos nos papéis e fotos que ele guardava. Fizemos isso sábado passado na intenção de procurar material, principalmente fotos, para um grupo de amigos de trabalho de meu pai que estão pretendendo homenageá-lo. E olha só a coincidência: neste último sábado, 18, fez exatamente um ano que meu pai foi sepultado. Mas não há melancolia nisso, saudade sim mas sem tristeza. Na verdade até nos divertimos e descobrimos mais sobre Seu Maurício, como: cartinhas e cartões de aniversário e dos dias dos pais que a gente deu pra ele quando criança e que ele guardou com carinho; uma tira do Angeli com o personagem "O Velho Cartunista" que xinga e cospe nas pessoas da janela de seu apartamento (Seu Maurício tinha humor, um tanto sarcástico, bem verdade); descobrimos ainda que na década de 60 meu pai realizou trabalho de extensão com praieiros da Praia do Poço, na Paraíba; e encontramos um cordel contando a história da extensão rural na Paraíba (pra quem não sabe, meu pai foi engenheiro agrônomo) onde aparece o nome dele em um dos versos. Pois é, há um ano meu velho partiu e a gente ainda está descobrindo ele...

Mas voltando ao início, desconheço os cinco amigos que lhe ofereceram aquele cartão. Decerto devem ser pessoas sensíveis e creio que não são brasileiros, digo isso por causa da dedicatória: "Con cariño al amigo BRASILEIRO". Ainda no cartão tem impressa uma mensagem em espanhol falando sobre justiça, solidariedade, liberdade e dignidade. E o cartão é de Navidad, talvez uma comuna chilena (pesquisei na internet).

Sei que não devo tirar conclusões apressadas mas tudo leva a crer que devem ser amigos de algum outro país da América Latina. Chilenos? Meu pai viajou um bocado, a trabalho, por vários países latino-americanos. Certa vez até trouxe pra mim uma boneca de tricô, na verdade uma indiazinha peruana ou boliviana ou colombiana, não sei ao certo. É a única boneca da qual não me desfiz... Às vezes tenho a impressão - quase certeza - que vem daí meu carinho e empatia pelos povos andinos, carinho que se estende aos demais povos da América Latina, oprimidos pelo "mundo livre".

Dedico, pois, esta postagem, com um grande abraço a nuestros hermanos y hermanas, e a Seu Maurício, meu pai que, sem perceber, despertou em mim essa sensibilidade quando eu era apenas una niña.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

geometria descritiva, estou estudando geometria descritiva, relembrando velhos tempos da faculdade de arquitetura. sem cabeça pra escrever poesias mas... quem sabe minha próxima postagem não será um desenho com projeções de sombras errantes, oblíquas, com olhos de ressaca?
quem sabe? quem sabe?

acho que vou pirar...

segunda-feira, 28 de julho de 2008

se minha bolsa falasse...

Certa vez um rapaz, ao observar o conteúdo de minha bolsa, comentou: "bolsa de mulher é tudo igual, cheia de coisas supérfluas". Ele falou de um jeito que não me deixou irritada, pelo contrário, até achei graça.

Hoje, mexendo em minha bolsa, me lembrei dele e de sua frase. Fiquei pensando quão relativo é o conceito de "coisa supérflua" que varia, não apenas, de pessoa para pessoa como também de acordo com a situação. Por exemplo, para que serve acumular em minha bolsa tantos folhetos que recebo na rua? Aparentemente não serve pra nada. Mas tem momentos que o verso em branco do folheto serve de rascunho, seja para anotar o telefone de alguém, seja para anotar o nome do livro que descobri na livraria e fiquei a fim de comprar, ou simplesmente serve pra escrever um poema. Acredita que eu já fiz um poeminha, em pé, na fila de um banco?

Se minha bolsa falasse, talvez recitasse poesias.

Eu poderia escrever tudo na minha agenda, é verdade, mas como ela é pesada poucas vezes a levo na bolsa, prefiro deixá-la em casa. Mas voltando aos folhetos, nem sempre conservo-os na bolsa pra servir de rascunho. Também guardo porque gostei da arte, da diagramação, principalmente os que anunciam festas - sempre divertidos - e os que divulgam exposições de arte. Muitas vezes não vou às festas, perco a exposição mas guardo o folheto.

Se minha bolsa falasse, seria uma ótima anunciante de eventos festivo-culturais.

Mas minha bolsa também carrega ingressos de cinema usados (super supérfluo), boletos bancários (pagos e não pagos), notas de compra - qualquer nota, seja a do pão da padaria ou da calcinha de algodão que eu comprei numa promoção das Lojas Americanas. A bichinha (ela, minha bolsa) às vezes também serve de guarda-lixo porque eu sou daquelas que, não encontrando uma lixeira na rua, enfia o lixo dentro da bolsa, tadinha... Minha bolsa deve ter horror ao fato de sua dona ser politicamente correta. E por falar em "politicamente...", seja em manifestações de ativismo ou em época de eleições, ela (a bichinha, minha bolsa) se enche de panfletos. Então eu digo a ela: "Vamos lá, companheira, à luta!"

Se minha bolsa falasse, gritaria palavras de ordem - às vezes, desordem.

Mas não só de papelada se enche minha bolsa. Nela também carrego minha carteira vermelha, meu porta-níquel de pelúcia rosa-choque, chave de casa, óculos escuros e outro de grau, celular, caneta, batom, escova de dente, um pente, filtro solar (mas acabou...), porta-absorvente, às vezes camisinha e lubrificante íntimo, muito útil em casos de sodomia.

E aquela frase daquele rapaz - sim, aquela mesma, do início desta crônica - foi proferida justamente enquanto ele procurava em minha bolsa o tal lubrificante. Naquele momento de urgência em saciar o desejo, devo concordar com ele: quase tudo em minha bolsa era supérfluo.

E se minha bolsa já tem uma alma feminina, certamente sentiu prazer ao toque das mãos másculas daquele rapaz que, despudoradamente, explorou-a e vasculhou-a ainda úmida da chuva na qual a fizera mergulhar comigo, a caminho do hotel, numa noite de razão supérflua.

sábado, 26 de janeiro de 2008

sobrinha, carnaval e punk rock

De vez em quando saio nos finais de semana com minha sobrinha de 12 anos, Maria Antônia. Ela fica toda animada, faceira como é, adora passear, e logo pergunta: “a gente vai de quê, tia?” Pergunta já sabendo a resposta, pois não tenho carro, só ando de ônibus, táxis só em situação de emergência, ou quando volto tarde da noite. E eu respondo: “De 'busu', claro”. E ela sorri, divertindo-se com minha resposta.

Hoje à tarde fomos pro Bairro do Recife, para quem não conhece, é o bairro onde nasceu Recife, pertinho do porto, e onde, no carnaval, rola muito frevo, maracatu, samba, coco de roda, ciranda, xous de roque, etc e tal. Ela, minha sobrinha, estava doidinha pra ver o agito do carnaval que já tá frevendo por aqui mas como fomos muito cedo, por volta das cinco, não estava rolando nada, ainda. Mas já tem muito turista na cidade, muita gente circulando e algumas batucadas de samba e maracatu. Perguntei a ela aonde queria ir e ela me disse: “Vamos pro Marco Zero, tia”. E lá fomos nós pro Marco Zero, um grande pátio aberto onde acontecem muitas apresentações no carnaval e que fica de frente pro mar. Compramos pipoca e sentamos na mureta de granito olhando para o mar e seus arrecifes. Uma turista se aproximou, sentou ao meu lado e vendo vários barquinhos levando gente para os arrecifes, perguntou:

“O que é que tem do outro lado?”
“Tem várias esculturas de um famoso artista plástico daqui, Francisco Brennand, e mais adiante, à direita, tem o Bar do Dique, muito legal”.
“Ah.... mas aqui também é um porto?”
“Não, não, os navios que chegam aqui atracam mais à direita, porque aqui não tem profundidade suficiente pra navios de grande calado, inclusive este espaço de exposição aqui ao lado foi projetado para ser o terminal de passageiros, caso navios aportassem aqui. Faltou melhor planejamento do governo”.

A moça me ouviu com muita atenção, pouco depois agradeceu as informações e foi embora. Eu e Antônia comemos a pipoca todinha e fomos andar pelo bairro, fomos parar na Livraria Cultura, juntinho do Paço Alfândega, fui dar uma olhada nos lançamentos e minha sobrinha foi direto ouvir cds, o que fiz um pouco depois. Apesar de ouvir boa música em casa, infelizmente ela também ouve e gosta, o que é pior, de muita coisa ruim, essas baboseiras que predominam nas rádios, atualmente. Não vou nem dizer o quê, porque algum leitor ou leitora pode gostar e não quero magoar ninguém.


Aproveitei a oportunidade pra lhe mostrar alguns sons, que considero de qualidade e que ela nunca ouvira: música cubana, mexicana, até da Turquia. Pois não é que ela curtiu, ela gosta de dançar e eram todas músicas ótimas pra mexer o esqueleto e rebolar. E ela ficava num fone de ouvido a uns dois metros de distância de mim e eu fazia gestos com a mão dizendo pra ela ouvir a terceira faixa e ela ouvia e fazia o gesto de "jóia”. E eu rebolava e ela rebolava e a gente ria junto. Ela fez sinal pra eu olhar pra um cara com uns dreads enormes e lindos! Ela sabe o quanto eu gosto de dreads. E eu reconheci que era Cannibal, vocalista da banda Devotos, da periferia do Recife mas na hora não comentei quem era ele. Antônia sentiu vontade de tomar sorvete e subimos pro primeiro andar da livraria, nos deliciamos com a guloseima e depois saímos. Enquanto atravessávamos a ponte Maurício de Nassau ela disse toda manhosa:

“Ô, tia, vamos pedir pro papai vir buscar a gente de carro”
“De jeito nenhum, viemos de busu e vamos voltar de busu”

Queria que ela aprendesse a andar por essa cidade à pé, porque só se conhece verdadeiramente uma cidade andando à pé. E alguém que não atravessa as pontes do Recife andando não pode se considerar recifense. Depois da ponte, logo alcançamos a parada de ônibus e não tardou pro nosso busu passar. A caminho de casa fomos conversando e então comentei com ela que aquele cara de dreads era vocalista de um banda de roque do Alto José do Pinho, junto do Morro da Conceição, periferia do Recife. Ela, evidentemente, nunca tinha ouvido falar da banda e eu lhe disse que era uma banda de punk rock e que tinha uma música do primeiro disco deles que dizia: “punkrockhardcore sabe onde é que faz, lá no Alto Zé do Pinho, é do caralho!” Ela adorou a música, principalmente a parte final: “É do caralho!” Criança adora falar essas coisas, falar palavrão, fala com um prazer enorme. E quando descemos do ônibus ela foi até em casa cantando a música. Prometi a ela que quando ela fosse um pouco mais velha a levaria para um xou da Devotos, coisa que há muito tempo não faço porque só vai a moçada dos trinta anos pra baixo. Mas acho que nunca vou deixar de curtir cantar e ouvir aquele...”punkrockhardcore sabe onde é que faz, lá no Alto Zé do Pinho...” e o público respondendo com o maior tesão: “...É DO CARALHO!!!”

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

à hora do sono

Um dos maiores prazeres que eu tinha na infância era o de adormecer ouvindo as vozes dos adultos conversando. Se mamãe dizia “vá pra cama que você já está com sono” eu respondia sonolenta que ainda queria ficar ali, deitada no sofá, na sala. E ficava eu, de olhos fechados, naquele estado especial entre o sono e a vigília embalada pelas vozes, verdadeiros acalantos aos meus sentidos. Deliciava-me ouvindo as conversas, os risos, os diferentes timbres, tons sobre tons de vozes, intercaladas por instantes de silêncio, muito familiares, muito íntimas, acalentando-me... Assim adormecia sentindo-me protegida dos monstros noturnos.

Muitos anos mais tarde, já adulta, experimentei algumas vezes este prazer na hora daquele soninho depois do almoço, ouvindo duas crianças brincando junto de mim, esforçando-se em falar baixinho para não acordar “a titia”. Assim adormecia embalada por vozes de anjos, protegida dos meus demônios.

sábado, 27 de outubro de 2007

O Moço da Bicicleta Encantada

Quando eu tinha por volta dos meus 14/15 anos, tocava violão, tocava não, arranhava. Não que fosse destituída de talento, modéstia à parte, tenho bom ouvido e sou afinada. Mas não tinha determinação, nem disciplina para me dedicar ao estudo do instrumento. Cheguei a tocar algumas pequenas peças, lendo partitura. Mas hoje, vendo um pentagrama musical, só identifico a clave de sol.
Foi mais ou menos nessa época que também tive a minha primeira desilusão amorosa, uma paixão platônica, diga-se de passagem. Ele, o tal “Moço”, era o cara mais bonito da escola, pelo menos aos meus olhos... Mas o que mais me encantava nele, não era seu corpo, nem seu rosto, nem seus olhos... O que realmente me impressionava era a maneira como ele andava de bicicleta. Vocês precisavam ver a maneira como aquele Moço chegava à escola. Sua bicicleta era uma caloi azul, linda! Nem sei qual dos dois era mais bonito, o Moço ou sua caloi. Até porque parecia que a bicicleta era uma extensão do corpo dele, tamanho era seu domínio sobre o veículo de duas rodas. O Moço fazia o diabo a quatro com a bicicleta, o que me fazia lembrar o filme Butch Cassidy & Sundance Kid, naquela cena em que Paul Newman anda de bicicleta se mostrando para Katharine Ross. Quem viu o filme deve se lembrar... “Raindrops Keep Fallin' on My Head...” . E eu, uma adolescente muito tímida, ficava olhando, toda boba e pensando: Que tipo de música ele deve gostar de ouvir? Será que gosta de Caetano, Gil , Chico?. Eu já sabia tocar no violão João e Maria, de Sivuca e Chico Buarque... “Agora eu era o herói e o meu cavalo só falava inglês/ a noiva do caubói era você além das outras três...”. Ou será que ele preferia rock? Bem, eu estava determinada a aprender os primeiros acordes de Stairway to Heaven do Led Zeppelin. Mas talvez ele preferisse o romantismo malemolente do Jorge Ben... "A minha teimosia é uma arma/ pra te conquistar/ eu vou vencer pelo cansaço até você gostar de mim...”. Com a ginga toda que ele tinha em cima da bicicleta é provável que ele gostasse sim, do Jorge Ben. E eu suspirava calada... Até que certo dia o Moço chegou à escola dirigindo um carrão preto, desceu cheio de pose e as garotas mais bonitas da escola ficaram ao seu redor, provavelmente o bajulando um bocado. Vocês não imaginam a minha raiva e decepção: "Como?! Como ele foi capaz de trocar a poesia por um carro?!". Sim, poesia, porque vê-lo em sua caloi azul era como ler um belo poema, ou admirar um belo quadro, um belo filme... "Como?! Como?!" Questionava-me, inconformada. Naquele dia descobri que, além de bonito, aquele Moço era o cara mais idiota da escola. E que todo o encantamento estava em sua linda caloi azul. A bicicleta era encantada, só podia ser. Sem ela, ele perdera toda a beleza e poesia, pelo menos aos meus olhos...

sábado, 20 de outubro de 2007

O Homem de Paletó e Gravata

Encontrei aquele homem no sinal fechado. Ele trajava paletó e gravata e tinha em uma das mãos um envelope vermelho. Assim como eu, esperava o sinal abrir para atravessar a avenida.
Gostei dele, do seu rosto, seu cabelo estilo Beatles, desalinhado...Apesar da roupa não parecia um homem careta. Às vezes certos trabalhos exigem trajes formais. Fazer o quê?
O sinal abrira e nós e mais uma ou duas pessoas atravessamos a avenida. Ele tinha o passo rápido e um andar elegante. Não, não tinha nada a ver com a roupa. Ele andava de um jeito natural, meio largado, como se usasse jeans e camiseta, muito à vontade, como se não soubesse ou não desse a mínima para o traje de jovem empresário urbano que trajava. E eu gostei disso. Seu ar cool, meio outsider (quanto ingrês!) me impressionou. Acompanhei, a alguns passos atrás, aquele homem mas nossos caminhos se separaram no cruzamento seguinte. Que pena, pensei. Mas para minha sorte, ou desejo, ou acaso, ele reapareceu na calçada que eu estava, atravessara a rua à minha frente e seguiu com seus passos rápidos e charme blasé. Eu o segui um pouco atrás e apressei o passo para não perdê-lo mais de vista. Ele dobrou a esquina que eu também dobraria, meu caminho natural para casa. Perdi-o de vista mas sabia que o reveria quando virasse a esquina. Dito e feito. Quando entrei na Rua das Crioulas, logo após a farmácia, o vi parado num fiteiro, comprando alguma coisa. E pensei: deve estar comprando um cigarro. Dito e feito. Passei por ele. Tinha que seguir, não tinha razão para interromper meu caminhar. Atravessei a rua, e ele atravessou logo depois, bem atrás de mim. Pude sentir seus passos... Ele logo me ultrapassou e eu atravessei a rua seguinte mudando para calçada do lado direito, enquanto ele seguia em frente, na mesma calçada, com seu charme, seu andar elegante e largado, cigarro na boca, cabelo ao vento, envelope vermelho... Virei outra esquina, entrei na Rua da Amizade. Não havia motivo para seguir aquele homem. Mas quem era aquele homem? Fiquei pensando. Poderia ser um bandido, um espião, um homem-bomba com um envelope na mão. Bem, não importa. Ele me impressionou. Nunca gostei de homens de paletó e gravata. Mas aquele me encantou, justamente porque parecia desprezar seu ‘paletó e gravata’... Quando cheguei em casa o esqueci. Mas no dia seguinte acordei pensando nele e me questionei: Por que deixei-o escapar? Eu tinha tanta pressa para chegar em casa? Eu precisava mesmo de razões coerentes para segui-lo?