Do ponto de vista da relação do ser humano com a cidade existem, basicamente, duas personas: o motorista de automóvel e o pedestre. Provavelmente estou sendo por demais simplista. Mas não quero complicar as coisas por isto serei novamente simplista. Existem dois tipos de arquiteto/urbanista: aquele que sonha e planeja a cidade do ponto de vista do motorista e o que sonha e planeja a cidade do ponto de vista do pedestre. Por uma série de razões e também por ser pedestre sou do time do segundo grupo.
Ontem à noite participei de uma reunião com os moradores do bairro onde moro, em uma escola de ensino fundamental, aqui mesmo, nas Graças, quando técnicos da Prefeitura do Recife expuseram o projeto para a beira-rio, deste mesmo bairro. Fui bem animada esperando encontrar algo semelhante ao projeto, já executado, da margem oposta, onde caminho diariamente: uma rua com mão dupla, pista de cooper, árvores e manguezal preservados. Mas para minha decepção me deparei com um projeto de avenida com quatro faixas, sem pista para caminhadas e a eliminação de boa parte do manguezal, visto que não há espaço suficiente para construção de uma avenida. A justificativa dos técnicos é aquela velha história da “necessidade de desafogar o trânsito”.
O Bairro: As Graças é um dos bairros mais agradáveis de se morar no Recife. Arborizado, ruas estreitas, predominantemente residencial, casas, edifícios antigos (existem novos edificios mas ainda é minoria). Quem mora aqui quer se preservar do inferno que é morar próximo às grandes avenidas mas também quer ver o trânsito fluir rápido. E agora, José?
Não sou especialista em urbanismo mas nem precisava ser para constatar que a abertura de grandes avenidas nunca resolveu (a não ser paliativamente), nem resolverá o problema de congestionamento de veículos nas cidades. A cada dia as pessoas adquirem novos automóveis. Uma família tem três, quatro carros. Digo famílias da classe media/alta, porque o pobre mal tem dinheiro para passagem de ônibus, por isto anda de bicicleta ou à pé. Podem-se abrir mil avenidas e o problema sempre permanecerá. Então qual a solução?
A solução é uma política urbana que valorize o transporte público: ônibus e metrô. Ciclovias também são bem-vindas e ao mesmo tempo uma campanha de conscientização da população. Faz-se necessário uma mudança de mentalidade e valores. Enquanto nossa sociedade privilegiar o “comprar e possuir” em detrimento do “compartilhar e contemplar” não conseguiremos ter qualidade de vida, nem meio-ambiente preservado.
Quanto ao projeto da beira-rio...mais reuniões virão, mais discussões...Espero que nós, moradores das Graças, consigamos barrar esse projeto e alterá-lo a fim de preservar a humanidade do nosso bairro.
Mapa acima: trecho do bairro das Graças.