terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Stela Campos

A década de 90 foi um período de grande efervecência cultural, principalmente musical, em Recife. Foi a década do surgimento do manguebit - prefiro essa grafia (assim como Fred 04) a manguebeat pois o movimento não se baseava num ritmo ou batida (beat) e sim na informação (daí "bit": menor unidade de informação digital) aliada à diversidade cultural recifense, ali representada pelo mangue ou, como dizia Chico Science: a imagem de "uma parabólica enfiada na lama".

Naquela década, pela primeira vez, os olhares dos formadores de opinião se voltaram para Recife, reconhecendo-o como um importante centro de música pop/rock e da boa! Foi quando Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A gravaram seus primeiros discos. Quando um festival de música produzido no Nordeste (Abril pro Rock) se tornou referência nacional e internacional, estimulando a formação e amadurecimento de várias bandas de estilos diversos. E foi em meio àquela agitação, que chegou em Recife uma moça, uma jornalista paulistana, também cantora e compositora que veio passar três semanas na cidade mas acabou permanecendo por seis anos na Manguetown. Citei seu nome há duas postagens atrás. É a tal moça que juntara-se aos Fellinis no projeto Funziona Senza Vapore e apresentou a música Criança de Domingo a Chico Science. Seu nome é Stela Campos.

Enquanto morou em Recife, Stela conheceu um bocado de gente boa como Chico e Fred 04. Fez shows. Participou de coletâneas, uma em tributo a Luiz Gonzaga e outra a Reginaldo Rossi. Participou de trilhas sonoras de filmes pernambucanos como Baile Perfumado. E até gravou seu primeiro disco solo, Céu de Brigadeiro (1999). Enfim, Stela se envolveu totalmente com a cena do Recife, o que só lhe acrescentou em termos criativos ainda que sua música não contenha sons regionais.

Quando aterrissou em Recife Stela já tinha uma banda, Lara Hanouska, e remontou-a com músicos locais. Mas depois de um tempo resolveu partir para carreira solo.  Em 2000 Stela retornou a São Paulo após receber uma proposta de emprego. Mas ainda que trabalhando como jornalista (afinal precisava pagar suas contas) continuou circulando pelo underground paulistano. Em Sampa já gravou mais três discos, Fim de Semana (2002), Hotel Continental (2005) e o mais recente, Mustang Bar (2009), considerado seu trabalho mais visceral, com ênfase nas guitarras.

As músicas de Stela são pequenas crônicas urbanas que falam da correria cotidiana, de tédio, solidão, melancolia. Ou seja, fala de coisas comuns, sobre pessoas comuns vivendo em grandes centros urbanos. Luciano Buarque, pernambucano que conheceu na noite recifense, é seu parceiro nas músicas e letras (mais nas letras). E também é seu parceiro de palco e na vida conjugal.

Quanto ao estilo, bem, Stela transita por vários. Chico a chamava de "Billie Holiday de garagem" e muitos a chamam de "Lou Reed  de São Paulo". Tem influência de folk, jazz, rock de garagem, noise, música eletrônica, pós-punk... Sempre acompanhada de músicos excelentes e uma produção musical apurada. Em Mustang Bar o som está bem sessentista, psicodélico, com um pouco de pop francês. Ao ouvir o disco dá pra perceber bem a influência de Lou Reed e do Velvet Underground em várias músicas.

Bem, não pretendo continuar falando sobre o som da Stela, gostoso mesmo é ouvi-la! Mas antes gostaria de dizer mais uma coisinha. Mustang é o nome de um bar daqui de Recife que fica no centro da cidade (atualmente mais com cara de pizzaria). Mas na época a imagem que ficou para Stela era de um bar frequentado por boêmios, solitários, gente com pouco dinheiro no bolso. Ao contrário do que se possa imaginar não se trata de uma homenagem a Recife, como nas próprias palavras de Stela: "é mais um cenário para comportar personagens que poderiam sair de qualquer cidade grande".

De todo modo, cara Stela, nós, recifenses, nos sentimos homenageados/as.

Seguem dois vídeos: Laura te espera com uma arma na mão e em seguida Mustang Bar.









Quem quiser ouvir o disco inteiro (vale demais!) pode acessar o site da gravadora Trama, clique aqui

6 comentários:

Vais disse...

Ei ei, Sandrinha
êta lugar dos bão é este Recife!
Só vi o primeiro vídeo(tá rolando de ver, mas é foda, pois demora a carregar, ficam aquelas bolotinhas rodando, rodando, toda hora), gostei do som da Stela, e você uma danada :),senti também todas estas influências que você citou, o outro vejo depois e mais os aí pra baixo que não vi.
beijos, querida

sandra camurça disse...

Vais, querida hermanita
tu é que é uma danada: mesmo ausente do teu blog vens me visitar e ainda deixa comentário. Adorei!

Mas é um saco esse negócio de demorar pra carregar, não dá pra curtir o som direito, acaba com a paciência de qualquer um. Espero que logologo esteja rolando legal de ver o vídeo por aí. Mas se mesmo assim você já gostou do som da Stela , então vai gostar mais ainda quando der pra ver/ouvir com o vídeo todo carregado.

Tomara que tudo dê certo!

Beijão!

Cé S. disse...

Baita dica, Sandrinha! Eu não conhecia Stela Campos. Agora tô catando os sons dela no 4shared.

Beijão!

sandra camurça disse...

Massa, César! Eu sabia que você ia curtir! ;)

Beijão, querido!

conradopreto disse...

Demorei mas eis que passo por aqui! Uma hora ou outra a vida real nos afasta da virtual. :) Boa aplicação sonora! Bem legal o som!

Um abração,
C

sandra camurça disse...

Bom que gostaste, C. ;)

Beijos