Em mais um dia de rotina exaustiva e enfadonha, uma camareira arruma uma suíte de hotel de luxo. O hóspede sai nu do banheiro e, vendo a camareira, segue seu impulso mais animal abusando sexualmente e estuprando a mulher.
Este seria apenas mais um caso entre milhares de estupros que acontecem diariamente no mundo, poucos punidos e muitos impunes. Mas desta vez o criminoso é o presidente do FMI (o maior orgão de agiotagem mundial que explora as nações mais pobres). Dominique Strauss-Kahn (DSK) é o nome do algoz, branco europeu. Sua vítima, Nafissatou Diallo, uma negra africana. Pelo visto DSK está seguindo à risca o que já é de praxe de quem detém o poder econômico no mundo. Os donos do capital podem tudo. Nações mais pobres são "estupradas" diariamente, literalmente fudidas, assim como a camareira negra e pobre.
DSK alega inocência, diz que o ato sexual foi consentido. Nafissatou nega, afirma, ainda assustada, que foi estuprada - não é fácil denunciar um crime cometido por um homem de poder.
Matérias na imprensa comparam o caso aos escândalos sexuais do primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi, ou do ex-presidente estadunidense Bill Clinton. Comparação lamentável, pois não se trata de simples escândalo sexual. Estupro é crime hediondo. Além disso trata-se de um crime que envolve sexismo e racismo numa América aonde o negro foi trazido à força e onde, durante séculos, foi explorado, torturado e subjugado.
Há uma tendência mundial, sob conivência da grande mídia, de minimizar os crimes praticados pelos países ricos, enquanto as nações pobres são tratadas como selvagens e bárbaras. Mas nunca esqueçamos que a barbárie começou entre povos anglo-saxões, celtas, gauleses, vikings, todos originários da Europa. E a barbárie continua, disfarçada de ajuda humanitária, ajuda monetária, intervencionismo e anti-terrorismo.
O continente africano (não citarei o Oriente Médio), sob o jugo do imperialismo ocidental do século XIX, foi transformado em colcha de retalhos, recortada e costurada por ingleses e franceses em benefício dos mesmos. Dividir pra dominar, é o lema dos países ricos, da Europa branca e da América estadunidense, seguidora da cartilha da exploração. Não admira que a sede do FMI esteja fincada naquele solo. Enquanto isso aguardamos, displicentemente, que se faça justiça ao crime de estupro sofrido por Nafissatou que carrega em sua cor (e dor) o sofrimento atávico de uma África espoliada e estuprada.