Sou suspeita em elogiar essa banda mas preciso dizer: a Mundo Livre S/A é uma das melhores bandas que surgiram no Brasil nos últimos 20 anos. Seja pelas melodias, pela malemolência, pelos arranjos ou pelas letras de Fred Zeroquatro, politizadas e cheias de ironia punk. Mas Fred Zeroquatro também é muito bom ao compor músicas e letras amorosas, imersas em desejos molhados, sem pudores, sem pudores...
Um exemplo disso é "Caindo em si", música do disco "O Outro Mundo de Manuela Rosário".
A década de 90 foi um período de grande efervecência cultural, principalmente musical, em Recife. Foi a década do surgimento do manguebit - prefiro essa grafia (assim como Fred 04) a manguebeat pois o movimento não se baseava num ritmo ou batida (beat) e sim na informação (daí "bit": menor unidade de informação digital) aliada à diversidade cultural recifense, ali representada pelo mangue ou, como dizia Chico Science: a imagem de "uma parabólica enfiada na lama".
Naquela década, pela primeira vez, os olhares dos formadores de opinião se voltaram para Recife, reconhecendo-o como um importante centro de música pop/rock e da boa! Foi quando Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A gravaram seus primeiros discos. Quando um festival de música produzido no Nordeste (Abril pro Rock) se tornou referência nacional e internacional, estimulando a formação e amadurecimento de várias bandas de estilos diversos. E foi em meio àquela agitação, que chegou em Recife uma moça, uma jornalista paulistana, também cantora e compositora que veio passar três semanas na cidade mas acabou permanecendo por seis anos na Manguetown. Citei seu nome há duas postagens atrás. É a tal moça que juntara-se aos Fellinis no projeto Funziona Senza Vapore e apresentou a música Criança de Domingo a Chico Science. Seu nome é Stela Campos.
Enquanto morou em Recife, Stela conheceu um bocado de gente boa como Chico e Fred 04. Fez shows. Participou de coletâneas, uma em tributo a Luiz Gonzaga e outra a Reginaldo Rossi. Participou de trilhas sonoras de filmes pernambucanos como Baile Perfumado. E até gravou seu primeiro disco solo, Céu de Brigadeiro (1999). Enfim, Stela se envolveu totalmente com a cena do Recife, o que só lhe acrescentou em termos criativos ainda que sua música não contenha sons regionais.
Quando aterrissou em Recife Stela já tinha uma banda, Lara Hanouska, e remontou-a com músicos locais. Mas depois de um tempo resolveu partir para carreira solo. Em 2000 Stela retornou a São Paulo após receber uma proposta de emprego. Mas ainda que trabalhando como jornalista (afinal precisava pagar suas contas) continuou circulando pelo underground paulistano. Em Sampa já gravou mais três discos, Fim de Semana (2002), Hotel Continental (2005) e o mais recente, Mustang Bar (2009), considerado seu trabalho mais visceral, com ênfase nas guitarras.
As músicas de Stela são pequenas crônicas urbanas que falam da correria cotidiana, de tédio, solidão, melancolia. Ou seja, fala de coisas comuns, sobre pessoas comuns vivendo em grandes centros urbanos. Luciano Buarque, pernambucano que conheceu na noite recifense, é seu parceiro nas músicas e letras (mais nas letras). E também é seu parceiro de palco e na vida conjugal.
Quanto ao estilo, bem, Stela transita por vários. Chico a chamava de "Billie Holiday de garagem" e muitos a chamam de "Lou Reed de São Paulo". Tem influência de folk, jazz, rock de garagem, noise, música eletrônica, pós-punk... Sempre acompanhada de músicos excelentes e uma produção musical apurada. Em Mustang Bar o som está bem sessentista, psicodélico, com um pouco de pop francês. Ao ouvir o disco dá pra perceber bem a influência de Lou Reed e do Velvet Underground em várias músicas.
Bem, não pretendo continuar falando sobre o som da Stela, gostoso mesmo é ouvi-la! Mas antes gostaria de dizer mais uma coisinha. Mustang é o nome de um bar daqui de Recife que fica no centro da cidade (atualmente mais com cara de pizzaria). Mas na época a imagem que ficou para Stela era de um bar frequentado por boêmios, solitários, gente com pouco dinheiro no bolso. Ao contrário do que se possa imaginar não se trata de uma homenagem a Recife, como nas próprias palavras de Stela: "é mais um cenário para comportar personagens que poderiam sair de qualquer cidade grande".
De todo modo, cara Stela, nós, recifenses, nos sentimos homenageados/as.
Seguem dois vídeos:Laura te espera com uma arma na mão e em seguidaMustang Bar.
Quem quiser ouvir o disco inteiro (vale demais!) pode acessar o site da gravadora Trama, clique aqui
Chico Science não necessita de apresentações, eu creio (ou será que superdimensiono sua fama?). Quanto ao Cadão Volpato acho que devo apresentar. Cadão, além de jornalista e escritor, é letrista e vocalista do Fellini, banda paulista, pós-punk (não me perguntem o que isso significa), dos anos 80 que Chico Science e Fred Zero Quatro curtiram um bocado (eu também!).
Em 1992 Cadão formou outra banda com a cantora Stela Campos e mais dois integrantes do Fellini: a Funziona Senza Vapore, banda que não durou nem um ano, mas uma cópia doméstica das gravações do disco, em fita cassete, chegou ao Recife pelas mãos da Stela que a apresentou a Chico Science. Essa cassete tinha a música Criança de Domingo (Cadão Volpato - Ricardo Salvagni)gravada posteriormente por Chico Science & Nação Zumbi no disco Afrociberdelia (1996).
Essa música (linda!), por uma infeliz coincidência, tem os seguintes versos: "Eu sábado vou rodar/ criança de domingo/ sem saber guiar/criança de domingo...". Digo infeliz porque foi num domingo que Chico sofreu o acidente fatal enquanto dirigia o carro de sua irmã.
No ano seguinte à morte de Chico, o Fellini veio ao Recife tocar no Festival Rec-beat que acontece todos os anos em pleno carnaval recifense, e Cadão Volpato cantou uma das músicas que eu mais gosto do Fellini, dedicando-a a Chico Science. A música era Zum Zum Zum Zazoeira do disco 3 Lugares Diferentes (1987) que em seus primeiros versos diz:"Quando eu morrer/ uma nuvem de pó vai me suceder...". E mais adiante: "lá no Fundão/ morre mais um amigo do coração...".
Eu estava lá e enchi os olhos d'água... Não era mais pra chorar, afinal Fellini é uma banda cheia de humor nonsense, um humor fino. Mas, naquela ocasião, fiquei com um nó na garganta...
Ah, ouçam as músicas em volume máximo! Ou, melhor ainda, com fone de ouvido.
Sábado passado comprei o mais recente disco de estúdio de Manu Chao, La Radiolina (radinho em italiano ou rádio de bolso) de 2007. Amei logo na primeira audição. Gosto demais da música desse francês, filho de pais espanhóis, que mistura punk com ritmos latinos, rap, reggae, flamenco e o que vir/ouvir pela frente, sem preconceito. Antes de seguir carreira solo Manu Chao teve várias bandas, a mais famosa foi a Mano Negra (uma homenagem a La Mano Negra, uma suposta organização anarquista espanhola do séc. XIX) formada por integrantes de várias nacionalidades. Em 1992, com a Mano Negra, Manu Chao fez uma turnê nada convencional pela América Latina: viajaram de barco ao lado de atores circenses, apresentando-se em várias cidades portuárias. Em 1995 a Mano Negra acabou e Manu Chao voltou a viajar pela América Latina com seu violão. Clandestino, seu primeiro disco solo, foi resultado dessas viagens.
Ahora ya basta de dados biográficos, não quero me alongar. Mas achei pertinente falar um pouco da origem e da vida de andarilho de Manu Chao porque explica como esse europeu, esse francês, se tornou tão latinamericano.
Manu Chao viajou pela América Latina não como aquele jovem médico argentino que um dia saiu de casa com um amigo e uma motocicleta chamada La Poderosa, e que mais tarde se tornou um revolucionário. No entanto a intenção da viagem não diferia muito daquele: assim como Che, Manu Chao queria conhecer a América Latina, sua pobreza, suas mazelas, mas também sua riqueza cultural e sua alegria! E a música de Manu Chao é uma festa! ainda que permeada de melancolia, nada mais natural, na vida como na arte... Mas Manu Chao também é indignado, punk mesmo, no melhor estilo The Clash, assim como Fred 04 e sua mundo livre s/a. Por sinal existe muita semelhança entre os dois, nem tanto musical mas na postura punk, insurgente. O bacana é que ambos são punks com suingue, groove, punks calientes e emotivos, graças a essa mistura que é a América Latina - América indígena, negra, moura e européia, tudo junto misturado.
Parafraseando o mais doce revolucionário das Américas, acho que posso afirmar que Manu Chao segue o lema:
Hay que ser punk pero sin perder la latinidad, jamás!
Ah, bom lembrar que a banda de apoio de Manu Chao chama-se Radio Bemba Sound System, uma alusão à Rádio Bemba (sistema de rádio rural) utilizada por Che e Castro em Sierra Maestra durante a Revolução Cubana.
Seguem o vídeo e a letra da segunda faixa de La Radiolina: Tristeza Maleza. Não se acanhe se der vontade de chorar...
Tristeza Maleza (Manu Chao)
El nada en el mar
Ella nada en el mar
Todo nada en el mar
Como una raya(x2)
Infinita tristeza
Late en mi corazon
Infinita tristeza
Escaldada passion
Infinita pobreza
Tu sombra en la pared
Infinita tristeza
Viento de Washington
Y Choré
Infinita tristeza...
Infinita tristeza
Viento de washington
Infinita pobreza
Tu sangre en la pared
infinita maleza
escaldada passion
Y choré...
Infinita tristeza...
…
Infinita tristeza
Late en mi corazon
Infinita pobreza
Tu sangre en la pared
Infinita tristeza
Infinita tristeza
El nada en el mar
Ella nada en el mar
Todo nada en el mar
Como una raya
Imagem produzida a partir de uma foto de uma cabeça de Santo de Roca*
*Santos de Roca são aqueles santos de madeira com estrutura articulada vestidos com roupas de tecido e que saem nas procissões religiosas.
"...minha mãe não pariu nenhum punk
no entanto
aqui estou eu!"
(Fred Zero Quatro)
ç
PS: Quero deixar claro que, por incrível que pareça, tenho o maior respeito pelas imagens dos santos. Nunca seria capaz de destruir (literalmente) uma cabeça de Santo de Roca, nem qualquer outro tipo de imagem religiosa. Meu lado iconoclasta não é tão radical assim (risos).