Carnaval acabou e todo ano todo folião tem a mesma sensação: foi pouco, quero mais!
Nem me incluo entre os foliões típicos porque, apesar de achar o carnaval a festa mais linda do mundo, sou uma foliona atípica: danço, canto mas sou muito mais contemplativa.
Adoro ver os maracatus, os afoxés, caboclinhos, os blocos líricos e todo tipo de fantasia que o povo inventa. O carnaval é, por excelência, a festa da irreverência, da alegria, da piada, do bom humor.
Tem quem ache tudo isso superficial, sem profundidade, frívolo. E é mesmo, ainda bem. No carnaval podemos assumir nosso lado mais fútil sem culpa, cometer alguns pecadilhos, inventar fantasia, brincar, enfim, ser novamente criança. Afinal ser o ano todo criança é impossível...
Mas carnaval também é coisa séria para muitos brincantes. Falo disso pensando nos caboclos de lança dos maracatus rurais que se preparam o ano inteiro, bordando suas golas e depois viajam da zona da mata até Recife/Olinda para se apresentar.Também penso nos integrantes das escolas de samba, dos afoxés, caboclinhos, pessoas simples, pobres das coisas materiais mas imensamente ricas de espírito, de bravura. Pessoas que mesmo fodidas, lascadas e mal pagas fazem questão de manter a tradição do seu folguedo, da sua escola que, muitas vezes, é o que dá sentido às suas vidas.
É por essas e outras que, mesmo se um dia eu parar de brincar carnaval (e a cada ano eu brinco menos...), o carnaval sempre será uma festa que terá o meu respeito e admiração, seja aqui, em Pernambuco, ou em qualquer lugar do Brasil onde as pessoas façam uma festa bonita de se ver e brincar.
Sei que esse samba é melancólico mas os sambas mais lindos são melancólicos mesmo, né não? Lembrei dele quando decidi escrever esse texto: Tristeza Pé no Chão com a saudosa Clara Nunes.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
moços, pobres moços...
“Os velhos são confusos porque sabem fazer muitas coisas que
não se usa mais.” (Paulo Leminski)
Desde que entrei no facebook há pouco mais de uma semana,
quase todo dia fico fuçando o que tem de opções “curtir”. Às vezes lembro algum
artista, poeta ou escritor e vou à cata pra ver se tem facebook.
Outro dia me lembrei de Nelson Leirner, artista que gosto
muito, ainda que conheça pouco. E não é que achei! Tinha dúvidas se o
encontraria porque Leirner tem seu próprio website onde estão expostos seus
trabalhos desde a década de 60 até hoje. Mas suas últimas atualizações no facebook eram
poucas e de 2011...
Daí fiquei imaginando – e só posso imaginar mesmo porque não
conheço Leirner – que provavelmente por conta da idade (Leirner tem 80 anos)
ele simplesmente não se adapta, ou não gosta - ou não gosta porque não se adapta - às redes sociais.
Leirner,
apesar da idade, exala juventude, anarquia, contestação e ludicidade em sua
obra. Desde os anos 60 até hoje ele não perdeu o pique! Fiquei imaginando o
quanto ele deve se sentir pouco à vontade e até confuso com computadores,
internet e redes sociais. Além disso imagino que Leirner ocupe bastante tempo com sua arte, pensando, elaborando,
experimentando, brincando!
Então lembrei a frase de Leminski que citei no início do
texto e que se encontra em seu livro Catatau: “Os velhos são confusos porque
sabem fazer muitas coisas que não se usa mais”.
Essa frase que, inicialmente, pareceu-me melancólica, numa segunda leitura me fez imaginá-la como se fosse o pensamento de muitos jovens que desdenham dos
mais velhos por não saberem utilizar as novas tecnologias. Esse tipo de jovem não valoriza a sabedoria, a bagagem de experiência e conhecimento dos velhos, simplesmente por considerará-la inútil,
“...que não se usa mais”.
Moços, pobres moços, agora lhes digo parafraseando o poeta: Os muito jovens que me perdoem mas velhice é fundamental!
Figurativismo Abstrato (2004)
arte de Nelson Leirner
domingo, 27 de janeiro de 2013
Para Perdedores
Para Perdedores é o nome do segundo disco de Walter Areia, mais conhecido como Júnior Areia, baixista, há mais de dez anos, da banda Mundo Livre S/A, além de compositor e produtor musical. Mas se na Mundo Livre, Areia toca baixo elétrico, em seu trabalho instrumental ele assume o contrabaixo acústico e já se tornou uma das principais referências do instrumento em Pernambuco.
Ainda estou ouvindo o disco, aos poucos, pelo site do próprio Areia, músico talentosíssimo!
Segue um vídeo do Areia & Grupo de Música Aberta com Maracatu de Baque Etéreo (adorei esse nome), um belo trabalho instrumental com sotaque nordestino. Todos os músicos são ótimos e o contrabaixo do Areia se faz percussão de maracatu de baque virado: segue o mesmo compasso, a mesma marcação da alfaia. No site Musicareia há mais informações sobre o disco, sobre o disco anterior (A Décima Lua), sobre o próprio Areia e todas as músicas (de ambos os discos) para ouvir e fazer daunloudi.
Para facilitar a vida de meus leitores e leitoras ouvintes de boa música e também por mim, peguei o soundcloud dos dois discos do Areia, Para Perdedores (4 faixas) e A Décima Lua (11 faixas) e truxe pra cá. Ei-lo:
Ainda estou ouvindo o disco, aos poucos, pelo site do próprio Areia, músico talentosíssimo!
Segue um vídeo do Areia & Grupo de Música Aberta com Maracatu de Baque Etéreo (adorei esse nome), um belo trabalho instrumental com sotaque nordestino. Todos os músicos são ótimos e o contrabaixo do Areia se faz percussão de maracatu de baque virado: segue o mesmo compasso, a mesma marcação da alfaia. No site Musicareia há mais informações sobre o disco, sobre o disco anterior (A Décima Lua), sobre o próprio Areia e todas as músicas (de ambos os discos) para ouvir e fazer daunloudi.
Para facilitar a vida de meus leitores e leitoras ouvintes de boa música e também por mim, peguei o soundcloud dos dois discos do Areia, Para Perdedores (4 faixas) e A Décima Lua (11 faixas) e truxe pra cá. Ei-lo:
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
sábado, 19 de janeiro de 2013
imperdível!
De uns tempos pra cá, deixei de ver sentido em fazer qualquer tipo de resenha sobre um filme ou um disco. A não ser que tivesse algo de muito significativo a dizer.
Vi O Som ao Redor no final de semana passado e acho que nem preciso dizer que gostei um bocado.
O filme mostra tensão, medo, barulho de todo tipo que tem nas cidades. Além de mostrar a origem do comportamento prepotente da nossa elite urbana.
Tenho muito orgulho do cinema que tem sido feito em Pernambuco, muitos baseados na realidade cotidiana das pessoas e sempre premiados em festivais nacionais e internacionais. O Som ao Redor é mais um a se destacar, seja pelo roteiro, pela qualidade da fotografia, edição e, em especial, o som com ruídos e trilha sonora de DJ Dolores. Como disse o próprio Kleber Mendonça Filho, "o som é 50% do filme". Pois o som é um dos principais responsáveis pela tensão e suspense do filme.
Se puder, assista! Já está em cartaz na maioria dos cinemas das capitais brasileiras.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
de volta à década de 80!
Ainda não ouvi Moon 1111, último disco de Otto, na íntegra.
Mas, de cara, adorei a música abaixo: Puro anos 80!
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
minha canequinha de inox
Quando era criança, sempre passava as férias escolares na casa de meus avós maternos, em Fortaleza. Certa vez, durante uma dessas férias, ganhei de minha Vó Naida, uma canequinha de inox com meu nome gravado. Lembro que adorei! Achei o máximo! Nunca tivera nenhum objeto com meu nome. Fiquei me achando muito especial. Até que, ao visitar meus primos e primas, descobri que todos eles tinham uma caneca exatamente igual a minha, com seus nomes também gravados. E eu achando que era a única neta que tinha ganho aquele presente...
Bobagem, vaidade, meninice, não importa, fiquei um tanto decepcionada. Mas com o tempo passou, claro. Sempre gostei e cuidei com carinho da minha canequinha, coisa que alguns primos não faziam: as asas das canecas deles eram deformadas, provavelmente de tanto levar queda.
Quando entrei na adolescência abandonei a canequinha porque achava um tanto ridículo usar uma caneca de criança com meu nome gravado. Além disso tinha algo de burguês ou aristocrático naquela canequinha. E na adolescência eu idolatrava Che Guevara. Tinha lido uma biografia de El Che, contando a história da Revolução em Sierra Maestra e acreditei - juro - que só a revolução armada poderia salvar a humanidade do capitalismo. Ainda não sei como nos livraremos do capitalismo mas revolução armada já saiu, há muito, dos meus planos...
Passaram-se os anos e minha canequinha permaneceu guardada - e abandonada - no armário da cozinha lá de casa. Mas quando saí pela primeira vez da casa de meus pais, não esqueci de levá-la comigo, seja pelo valor afetivo que representa ou por talvez intuir que um dia ela voltaria a ter utilidade.
Há dois dias resgatei minha canequinha do limbo no qual passara décadas. Mas não estou usando-a em casa. Levo-a em minha bolsa e quando entro em algum lugar que tem aqueles garrafões d'água, saco a bichinha e dispenso os copos plásticos (aonde quer que eu vá, bebo água: Recife tem um calor dos infernos!).
E assim minha canequinha de inox burguesa adquiriu uma função social, sustentável, anti-consumo e, consequentemente, anti-capitalista.
Carregada de valor afetivo, virou símbolo de meus pequenos gestos a favor de um mundo menos artificial, menos descartável, menos plástico!
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
adoro esta valsa pop erótico-amorosa ;)
No Fundo
(Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra)
em cima de cima assim e acima
sobre do alto e de alto a baixo debaixo
ao lado atrás e de lado a lado detrás e
sob acolá e além de ali depois pelo
centro entre de fora dentro na frente
e já de agora em frente e daqui
defronte através e rente
no fundo no fundo no fundo no fundo
em pé de repente perto envolvido em
torno envolvendo em volta e de volta
já e também no meio na mosca no alvo
na hora fora daqui mas a poucos pés pouco
a pouco aos pés através atrás de viés
e em e ainda mais e ainda agora e a
cada vez de uma vez ainda
no fundo no fundo no fundo no fundo
ante e antes de então e então durante
e enquanto aqui por enquanto adiante
avante acerca e portanto ao largo ao
redor e lá e nos arredores nos cantos
cá de passagem logo tangente longe
distante hoje de ontem onde depois de
onde pra onde onde
no mundo no mundo no mundo no mundo
sobre do alto e de alto a baixo debaixo
ao lado atrás e de lado a lado detrás e
sob acolá e além de ali depois pelo
centro entre de fora dentro na frente
e já de agora em frente e daqui
defronte através e rente
no fundo no fundo no fundo no fundo
em pé de repente perto envolvido em
torno envolvendo em volta e de volta
já e também no meio na mosca no alvo
na hora fora daqui mas a poucos pés pouco
a pouco aos pés através atrás de viés
e em e ainda mais e ainda agora e a
cada vez de uma vez ainda
no fundo no fundo no fundo no fundo
ante e antes de então e então durante
e enquanto aqui por enquanto adiante
avante acerca e portanto ao largo ao
redor e lá e nos arredores nos cantos
cá de passagem logo tangente longe
distante hoje de ontem onde depois de
onde pra onde onde
no mundo no mundo no mundo no mundo
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Conto de Natal
por Marcelo Carota (Pirata Z)
filho de um comerciante de frutas, secos e molhados,
N um conto de natal
ecco! - ou, 'Don' Angelo e o cavalo do Zorro
1973. eu, 7 anos de idade.
como todo mundo, em toda família, eu tinha um tio meio 'torto' - casado com
uma irmã de meu avô siciliano - e meio banana, também. seu nome era [ó só]
Américo... rico. muito rico. bobo. muito bobo. vai vendo.
todo ano, próximo ao natal, ele perguntava qual presente a gente gostaria de
ganhar, mas, no almoço de natal, sem nem embrulhar, ele dava pra todos uma
mesma revistinha do rato mickey... no ano seguinte, a mesma pergunta, e eu,
bobo, na batata, respondia: "a capa, a espada, a máscara e o cavalo do Zorro!". tá.
chegava o natal, revistinha do rato mickey. no ano seguinte, mesma pergunta,
mas, desta vez, pensando que, talvez por conta do cavalo, que devia custar uma
nota, é que eu nunca ganhava o que pedia, tirei o bicho do pedido. em vão... no
almoço de natal, revistinha do rato mickey... vendo-me murchar, 'Don' Angelo,
meu avô, não se conteve. cuspiu no prato uma castanha que estava comendo,
juntou os polegares às pontas de cada mão em concha e, agitando-as, disparou:
- ascuta me, Américo: sei pazzo?
- what's up? - provocou o tio américo, que adorava falar inglês menos para se
exibir e mais para irritar meu avô, sabendo-lhe o apego às suas raízes.
- uatis api mio cazzo! risponda me: sei pazzo?
- no, i don't. why?
- então, caspita ! qual o prazer de deixar uma criança triste?!
- mas eu não dei o presente?
- ah, fancullo! um aviso: nunca mais - mai, capice? - dê presente para meus
netos, capice?
- mas...
- capice, pezzo di merda?
- tá, tá, entendi...
- ecco!
e, com seu sangue siciliano ebulindo nas veias, 'Don' Angelo esmagou uma
noz com as bases das mãos, 'sinalizando', claro, que é o que faria com o crânio
do cunhado cretino, não fosse isso matar Giulia, a sua irmã, de desgosto, com
o que, além de tudo, sem o bolo de nozes que esta fazia, os natais nunca mais
seriam iguais - e natal, para o meu avô, era coisa muito séria; daí sua fúria.
'Don' Angelo foi um homem de amores plurais; assim, amou intensamente,
enquanto viveu, os netos e as mulheres - nesta ordem, graças à qual minha
avó, 'Dona Pina', assim o definia: - "um péssimo marido, um pai severo e um avô
de conto de fadas" - e foi, mesmo, tudo isso, mas eu tive a sorte de ser neto...
militar reformado, nunca foi rico, mas, para os netos - e para as "ragazzas",
claro - jamais negou nada, nunca aparecendo para ambos com as mãos vazias
[e, no natal, essa característica era elevada à enésima potência].
pelos netos, em dezembro, sossegava o "periquito", vivendo exclusivamente
para a família. ia ao banco, sacava todo dinheiro duma conta de poupança que
mantinha para o natal, na qual, de janeiro a novembro de cada ano, 'pingava'
toda grana que conseguia economizar. pegava o seu Maverick - que, pra mim,
nanico como fui em criança, parecia um iate -, juntava os netos, e íamos às
compras - exceto as de nossos presentes, que essa era uma delícia toda dele.
'Don' Angelo era um craque pra escolher as melhores e
mais variadas frutas. pelo toque e pelo cheiro, sabia se
eram, ou não, as mais deliciosas - idem para a escolha
das azeitonas e do azeite [siciliano, sempre, e o cheiro
deste nunca mais saiu de minha memória], bem como
do cordeirinho a ser assado e do vinho a ser bebido [até
pelas crianças, aos bocadinhos por ele, claro, servidos].
comprávamos ainda todos os ingredientes para as massas e doces que Dona
Pina preparava em casa - até os 9 anos, nunca comi massa industrializada -, e
mais: velas, adereços para a árvore que ele montaria, tudo de necessário para
receber "os cavaleiros e a princesa de meu reino", referindo-se, respectivamente,
aos 4 netos e à única neta de sua corte muito particular - e tudo isso em troca,
acredite, de ouvir uma única e mesma palavra de cada neto à sua pergunta:
- então: tutti bellissimo?
- ecco! - exclamávamos, individualmente, a palavra mágica.
e 'Don' Angelo, depois de ouvir 5 ecco, com o seu rosto de homem mais feliz
do mundo, ensopava um dos finos lenços que adorava ganhar. italianíssimo...
por aí, creio, dá para imaginar o que significou pra ele a babaquice do tal tio
Américo, à qual reagiu não só esmagando a noz, mas, faltou dizer, chamando-
me junto a si, colocando-me no seu colo e, com o maior sorriso, dizendo-me:
- ei, piccolo Zorro, que cara é esta, hãn? no natal do ano que vem, EU vou te
dar a tua capa, a tua máscara, a tua espada, e mais: vou te dar o teu cavalo!
- branco, vô?
- ecco!
- grande?
- bem - e olhou em direção ao Américo, antes de responder: - mezzo. pode?
- ecco!
- ecco! - repetiu 'Don' Angelo, com um sorriso diferente no rosto.
durante o ano, eu não pensava noutra coisa que não no cavalo que meu avô
me prometera. em outubro, comecei a ser preparado para a chegada do bicho -
e meu avô, com toda sua lábia, me convenceu de que ter um cavalo 'diferente'
era muito mais legal do que ter um cavalo igual a qualquer outro. concordei.
num domingo, estava na casa de meu avô. Palmeiras e São Paulo jogariam
uma partida decisiva, e meu avô estava muito agitado, nervoso. acendeu seu
cachimbo, colocou-me em seu colo, e me perguntou:
- quem vai ganhar, Zorro?
- o Palestra. de quanto, vô?
- não importa. basta ganhar - e viva o Palestra!
- viva!
5 minutos de jogo, gol do São Paulo. o cachimbo de 'Don' Angelo foi ao chão.
toca o telefone, minha avó atende e passa o aparelho pro meu avô, dizendo:
- é o Américo.
o tio Américo era tão são-paulino, mas tão são-paulino, que, rico, comprara
uma mansão no Morumbi, para facilitar a vida dos amigos que tinha no clube,
nos dias em que fazia festas pra estes.
meu avô, já esperando a gozação, atendeu.
- alô. sim... sei... caspita! já disse que sei! fancullo! o jogo apenas começou -
bum! bateu o telefone, e exclamou: - e viva o Palestra!
- viva! - acompanhei.
10 minutos para acabar o primeiro tempo. falta a favor do São Paulo. Pedro
Rocha, se não me falha a memória, vai bater. tem, dizem, um canhão no pé.
- vô, eu quero um canhão pra colocar no pé.
- filho, fica quietinho. vamos torcer pra bola acertar o placar.
- mas cê me dá um canhão pra colocar no pé?
- dou, mas depois.
gol do São Paulo. desta vez, eu - não o cachimbo -, é que vou ao chão, com o
salto que meu avô deu da cadeira, berrando palavrões, brigando com o locutor,
esquecendo-se de que eu estava em seu colo...
- desculpe, filho. foi sem querer que o vovô fez isso, ouviu?
- ouvi. me dá um canhão pra colocar no pé?
- dou, mas amanhã. hoje é dia de torcer pro Palestra. e viva o Palestra!
- viva!
toca o telefone.
- se for o filho da puta do Américo, diz que tô com a irmã dele, ligo depois.
- alô - atendeu 'Dona' Pina, que foi logo dizendo: - Américo, se eu fosse você,
ligava mais tarde.
- certo, Pina, mas fala pro Angelo não se esquecer do que...
- Américo - interrompeu minha avó.
- quê?
- fancullo!
começa o segundo tempo. 15 minutos de jogo, pênalti para o Palmeiras, que
Leivinha converte. toca o interfone, minha avó atende.
- sim, claro. mil desculpas. obrigado. - diz 'Dona' Pina, que desliga o aparelho
e fala para meu avô: - o síndico pediu pra fazer menos barulho.
- corintiano filho de uma puta, isso sim!
mais 10 minutos, Ademir da Guia cruza para César Maluco, que, de cabeça,
empata para o Palmeiras. indescritível, a reação de meu avô. toca o telefone -
desta vez, ele mesmo atende:
- parla, cornuto! grita agora, fala agora! o quê? da onde? sim, e daí? fancullo!
- quem era, o Américo? - quis saber minha vó.
- não, o síndico do prédio vizinho.
- e o que ele queria?
- pediu pra eu fazer menos barulho, o corintiano filho de uma puta.
o São Paulo, preferindo levar a decisão pros pênaltis, se fecha na defesa, e o
jogo fica amarrado, mas o Palmeiras insiste em tentar resolver o jogo no tempo
regulamentar. Luís Pereira vem com a bola lá de trás, da defesa palmeirense,
avança rumo ao meio-de-campo, e, quando um são-paulino vem marcá-lo, ele
toca para Dudu, que toca de primeira pra Leivinha, que dribla um, dribla outro,
avança e toca pra Ademir da Guia, que conduz a bola até a meia-lua com toda
a classe que lhe valeu o apelido de "Divino", corta um, desvia de um 'carrinho'
e, antes que 'Don' Angelo terminasse de mastigar o braço da poltrona, toca na
bola por baixo, esta encobre o goleiro e desce "lambendo" a rede, e o Palmeiras
vira o jogo. 3 a 2. faltando 1 minuto pra acabar, a torcida invade o campo. fim.
sentiram falta de algo e de alguém? eu também, no dia, porque 'Don' Angelo
não comemorou o gol, a vitória, o título, nada... saíra de mansinho da sala, pra
falar no outro telefone. ao encontrá-lo, vi que falava baixinho com alguém.
- era o tio Américo?
- não, filho, era a vizinha japonesa.
- e o que ela queria?
- não sei, filho, eu não falo japonês...
noite de natal. 'Don' Angelo, animadíssimo, entregando os presentes para
os netos. chega a minha vez.
- e a mio piccolo Zorro... questo!
qual prometera, 'Don' Angelo me deu a capa, a máscara e a espada do Zorro.
- e o cavalo, vô? - cobrei
- amanhã, na casa da tia Giulia.
mal dormi, aquela noite. já de manhã, as horas pareciam não passar, nada
de chegar a hora do almoço. me distraí com os apetrechos do Zorro, e usei um
cabo de vassoura à guisa de cavalo, e 'cavalguei' e enfrentei inimigos até ser
finalmente chamado para o banho, que tava na hora de ir à casa de tia Giulia.
fui vestido de Zorro, como recomendara 'Don' Angelo, para minha alegria, e,
lá chegando, tio Américo, com os seus cabelos brancos levantados de um jeito
muito engraçado, parecendo um moicano, ou parecendo ter uma crina, pegou-
me no colo, colocou-me sobre os seus ombros, e me disse:
- muito prazer, Zorro! meu nome é Pangaré, e eu sou o seu cavalo. Vamos?
e tio Américo saiu correndo pelo jardim enorme de sua casa, trotando e, eu
não entendi porque, gritando "Palestra, Palestra, Palestraaa!!", mas me diverti,
achando até melhor que um cavalo de verdade, que não gritaria "Palestra"...
eu o cavalguei por uns 5 minutos, até que meu avô veio, me tirou do ombro
de tio Américo, e disse:
- pronto, filho. depois você anda mais a cavalo.
- mas, vô, tava legal...
- dopo, filho, dopo. eu prometo. eu sou de não cumprir o que prometo?
- não.
- ecco! e você, Américo, vá se arrumar, vá.
- mas...
- caspita! vá se arrumar, que seus netos chegaram, porca miséria!
- olha, depois não venha me dizer que eu não paguei a...
- Américo, vá se arrumar pra receber seus netos! que prazer você tem em
deixar crianças tristes, dio santo!
na hora, fiquei injuriado, mas 'Don' Angelo, esperto, me distraiu rapidinho,
retomando aquela conversa sobre comprar um canhão para o pé, e aí, claro, o
"cavalo" não importava mais.
tempo depois, já crescidinho, ele já morto - 1982 -, é que pude, finalmente,
entender a dimensão emocional de 'Don' Angelo, "péssimo marido, pai severo e
um avô de conto de fadas". era mesmo. inclusive para netos que não os seus.
~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ pz ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~
Marcelo Carota é jornalista, escritor, zineiro, paulista e palmeirense.
Marcelo Carota é jornalista, escritor, zineiro, paulista e palmeirense.
Mora em Brasília/DF e se auto-denomina um caipira punk.
Texto editado originalmente em 19/12/2007 na Pirata Zine (zine eletrônica), edição 107, ano 4.
Boas festas e um ano novo com muito humor, saúde e alegrias pra tod@s!
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
trans.bordado
eu vi
a borda da lua
tran
sbo
rda
ndo))
((f
i))
((o
s))
((e o céu desabotoado
anoi
tecendo
bordado
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
prova dos loves
nãoflores, coitobeijo
assim por dia
nte pé an
tepé
em out
rora
sal
iva doce, sab
or de amor
a
69, loves
fora,
res
tam seis:
eu-você-moi-vous
-me-you
sem metáf
ora!
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