sábado, 27 de outubro de 2007

O Moço da Bicicleta Encantada

Quando eu tinha por volta dos meus 14/15 anos, tocava violão, tocava não, arranhava. Não que fosse destituída de talento, modéstia à parte, tenho bom ouvido e sou afinada. Mas não tinha determinação, nem disciplina para me dedicar ao estudo do instrumento. Cheguei a tocar algumas pequenas peças, lendo partitura. Mas hoje, vendo um pentagrama musical, só identifico a clave de sol.
Foi mais ou menos nessa época que também tive a minha primeira desilusão amorosa, uma paixão platônica, diga-se de passagem. Ele, o tal “Moço”, era o cara mais bonito da escola, pelo menos aos meus olhos... Mas o que mais me encantava nele, não era seu corpo, nem seu rosto, nem seus olhos... O que realmente me impressionava era a maneira como ele andava de bicicleta. Vocês precisavam ver a maneira como aquele Moço chegava à escola. Sua bicicleta era uma caloi azul, linda! Nem sei qual dos dois era mais bonito, o Moço ou sua caloi. Até porque parecia que a bicicleta era uma extensão do corpo dele, tamanho era seu domínio sobre o veículo de duas rodas. O Moço fazia o diabo a quatro com a bicicleta, o que me fazia lembrar o filme Butch Cassidy & Sundance Kid, naquela cena em que Paul Newman anda de bicicleta se mostrando para Katharine Ross. Quem viu o filme deve se lembrar... “Raindrops Keep Fallin' on My Head...” . E eu, uma adolescente muito tímida, ficava olhando, toda boba e pensando: Que tipo de música ele deve gostar de ouvir? Será que gosta de Caetano, Gil , Chico?. Eu já sabia tocar no violão João e Maria, de Sivuca e Chico Buarque... “Agora eu era o herói e o meu cavalo só falava inglês/ a noiva do caubói era você além das outras três...”. Ou será que ele preferia rock? Bem, eu estava determinada a aprender os primeiros acordes de Stairway to Heaven do Led Zeppelin. Mas talvez ele preferisse o romantismo malemolente do Jorge Ben... "A minha teimosia é uma arma/ pra te conquistar/ eu vou vencer pelo cansaço até você gostar de mim...”. Com a ginga toda que ele tinha em cima da bicicleta é provável que ele gostasse sim, do Jorge Ben. E eu suspirava calada... Até que certo dia o Moço chegou à escola dirigindo um carrão preto, desceu cheio de pose e as garotas mais bonitas da escola ficaram ao seu redor, provavelmente o bajulando um bocado. Vocês não imaginam a minha raiva e decepção: "Como?! Como ele foi capaz de trocar a poesia por um carro?!". Sim, poesia, porque vê-lo em sua caloi azul era como ler um belo poema, ou admirar um belo quadro, um belo filme... "Como?! Como?!" Questionava-me, inconformada. Naquele dia descobri que, além de bonito, aquele Moço era o cara mais idiota da escola. E que todo o encantamento estava em sua linda caloi azul. A bicicleta era encantada, só podia ser. Sem ela, ele perdera toda a beleza e poesia, pelo menos aos meus olhos...

9 comentários:

Moacy Cirne disse...

Belo texto, cara Sandra. No meu caso, eu jamais conquistaria alguém com a minha bicicleta (aos 15 anos). Mal sabia andar ou me equilibrar (era um desajeitado), quanto mais impressionar alguma garota...

sandra camurça disse...

MOACY, você não vai acreditar no que eu vou te dizer: eu não sei andar de bicicleta, ai que vergonha...rsrs.

Jens disse...

Oi. Sandrix:
Simplesmente M A R A V I L H O S O.
Adorei.
***
Eu também não sei andar de bicicleta, apesar do meu pai e da minha mana terem sido exímios bicicleteiros (existe a palavra?). Snif, snif, snif...
***
Cuidado, isto que brilha no asfalto não é um cogumelo. É o meu coração (não quer dizer nada. Só pra dar um toque de extravagância ao comentário.
***
Um beijo.
***
Não, dois.

Moacy Cirne disse...

Enquanto você não muda de postagem, aproveito para gritar: VIVA A REVOLUÇÃO DE OUTUBRO. Ou os seus ideais. Um beijo.

Vais disse...

Sandrinha, minha linda
a bicicleta, você, são encantadas, encantantes.
Maravilhoso, lindo!!!!
Eu adoro andar de bicicleta, mesmo não sendo uma bicicleteira, ahahah, vendi uma que trouxe de outras andanças por falta de uso, as meninas ainda não tem, bem, quando tiverem, pelo menos cumpriremos nosso papelito de ajudá-las a se equilibrarem.
Amo.
beijasso asso asso asso asso asso

Jens disse...

Oi Sandrix:
Voltei pra te dar um presente:

“E hoje com a chuva a cair
Olho pro céu e vejo um sol brilhar
Porque junto de você
Eu, como em sonho tanto quis,
Finalmente estou feliz.
Eu agora sou feliz"

(Versão de “Raindrops Keep Fallin' on My Head”).
***
Três beijos.

sandra camurça disse...

VAIS, você também é encantada e encantante, enfim, encantadora, rsrs. E cumpra sim seu papel de mamãe ensinando as pimpolhas a andar de bicicleta. Beijo enorme!

JENS, não conhecia a versão da música. Na verdade mal sei a tradução, rsrs, muito linda, viu? Grata, meu anjo. Um beijo.

Moacy Cirne disse...

Sandra: O cartaz soviético (no Balaio) merece ser divulgado por todos nós. Ele pertence a todos; quanto mais divulgá-lo, melhor. Beijos.

Marcelo F. Carvalho disse...

Sandra, isto é uma tremenda literatura!
___________________
Abraço forte!