segunda-feira, 21 de junho de 2010

no chão da boca

toda poça tem seu chão de estrelas
onde se agacha a lua encardida

as bordas das folhas babam de lábios
a água da chuva

a face mais dura do chão é de pedra
ou asfalto

tudo o que é mais permeável tem essência de terra
e boca

toda noite sonho com um deus de asfalto
semeando volúpia em minha boca

todo dia acordo com uma borra de desejo
no canto dos
lábios...

segunda-feira, 14 de junho de 2010

infância no mato

gosto mais de brincar que ser gente de siso
tenho mais de criança, de nuvem...
enquanto chuva, me faço rega.
terra molhada tem cheiro bom
todo mundo gosta, criança gosta.
deito na grama úmida, adormeço
acordo amanhecida de pétalas, lambida de sol.
na pele guardo o orvalho fresquinho.
no banho de bica a rã fria pula mais alto que minha bunda.
gosto mais dos embuás com suas tantas perninhas, fazendo cócegas na palma da mão
e à noite descobrir vaga-lumes, esses espiões camuflados de luz.
subo na árvore mais amiga - árvore amiga é aquela que tem muitos braços abertos dentro do céu -
sempre sonhei com casinha na árvore entre galhos e folhas de olhares brecheiros
mas fiquei contente com o balanço de corda e madeira
e voei sonhando passarinho.
bem sei que algum dia me refloresço criança
até beijar colibris dourados
até mijar margaridas azuis

domingo, 30 de maio de 2010

um olhar diverso

Dizem que Ana sempre olhou muito mal.
Que ela simplesmente não via o que quase todo mundo via.
Que seu olhar dispersa das coisas.
E que, entre outras coisas, só via de suspiros pela lua cheia nascendo no horizonte, ou via de chateação pela espinha impertinente nascendo em seu rosto.
Ana sempre enxergou melhor com os ouvidos.
Até parece que nasceu de música.
Poderia ser cantora, violonista, pianista.
Mas não, Ana escolheu as artes plásticas que pedem tanto aos olhos.
Assim Ana habituou esfregar seu olhar nas coisas ao seu redor.
No entanto esse olhar atento durou pouco tempo.
Ana distraída começou a ver com a imaginação, mais ou menos como fazia quando criança e via o que ninguém via.
Ana desenhou delírios e criou seres nunca vistos disso.
Nem tardou e Ana abandonou as artes.
Decidira escrever poesia e seu olhar se voltou para dentro.
Escreveu de sentimentos e sensações, principalmente sensações: "o sentimento vaza como música em minha pele".
Ana descobrira que não só os versos mas cada palavra, em si mesma, comporta sensações.
Carrasco, por exemplo, é uma palavra bem seca provavelmente pelo dígrafo rr seguido de asco.
Burburinho é uma palavra que borbulha e faz cócegas ao pé-do-ouvido.
Enquanto jequitinhonha tem algo de nhoc-nhoc, nhac-nhac.
E alpendre tem uma amplitude inicial mas aconchega no final.
Ana prestava muita atenção às sonoridades das palavras e suas significâncias, daí inventava neologismos.
Alguns dizem que Ana virou poeta porque enxergava muito mal com os olhos (bendita deficiência!).
Ana é de ouvidos, de sensações, imaginânsias e sonholências.

domingo, 23 de maio de 2010

Diário de uma ACS

Segunda-feira, oito horas da manhã, chuvinha fina. Avisto Ivanilson, meu colega ACS, vindo em minha direção em uma rua qualquer do bairro da Mustardinha. Ele acena pra mim fazendo continência com a mão direita. Eu retribuo o gesto e nós dois sorrimos. Conversamos um pouco e em seguida cada qual segue seu rumo ao próximo setor censitário que devemos cobrir.

Era apenas mais um dia na rotina exaustiva dos agentes censitários supervisores (ACS). Naquela segunda-feira iniciava meu oitavo setor, o maior até então, com 17 quadras que nem sempre correspondem a realidade encontrada em campo. Meu PDA (personal digital assistent) já estava em mãos pronto pra registrar todos os endereços residenciais e não residenciais, além de atualizar os mapas com o auxílio de GPS, e registrar as características do entorno: pavimentação, calçamento, iluminação, arborização, acúmulo de lixo, esgoto a céu aberto... Trabalho necessário mas repetitivo e enfadonho. E o calor do Recife continua infernal, apesar de estarmos no outono.

Chego em casa à tardinha, cansada, pernas cansadas e o corpo quente de tanto sol. Queria encontrar ânimo pra escrever um poema erótico, um conto amoroso mas não sinto tesão... Lembro Rilke em seu belo "Cartas a um Jovem Poeta" aconselhando-o a escrever sobre seu cotidiano mesmo que lhe pareça pobre. E na impossibilidade de escrever sobre o amor, decido escrever sobre o meu cotidiano atual, afinal todo cotidiano, o cotidiano honesto, tem sua dignidade.

Muitas imagens ocorrem em minha mente e encontrar, eventualmente, Ivanilson, é um alento pois aplaca em certa medida a solidão do trabalho de rua. Começo a escrever e já me encontro na terceira transcrição com papel e caneta em punho. Lembro Walter Benjamin em seu admirável "Rua de Mão Única" falando alguma coisa sobre transcrição de textos, que aquele que transcreve um texto o conhece melhor do que aquele que apenas o lê, como quem percorre uma estrada a conhece melhor que aquele que a sobrevoa. Transcrevo-me para descobrir os atalhos do meu texto - e do meu pensamento - e percorrer o melhor caminho. Penso nas ruas e becos que percorri mais de uma vez no bairro da Mustardinha. E em suas entrelinhas encontrei pessoas várias: gente curiosa, desconfiada, simpática, antipática, agressiva, doce, amarga... Encontrei dona de casa com suas panelas no fogo sem tempo de me atender. Encontrei senhora solítária que quase agradece por alguém ter tocado em sua porta. Encontrei pessoas sentadas em cadeiras nas calçadas jogando conversa fora. Encontrei um idoso que, se desse corda, contava a história do bairro todinha. Encontrei crianças jogando bola ou empinando papagaio. Encontrei crentes em cultos evangélicos. Encontrei pessoas em ofícios diversos e adolescentes ouvindo rap ou Chico Science. São muitas as vidas, humores e idiossincrasias encontradas entre/e nas vias/veias do bairro que, assim como a cidade, é mais que um mapa a ser llido. O bairro, assim como a cidade, deve ser percorrido, de preferência a pé. Pois só assim, a pé, se conhece não apenas seu corpo mas também sua alma.

Acho que já posso dizer que conheço o bairro da Mustardinha em corpo e alma. É só um pedacinho da cidade. Mas se a Mustardinha está contida no Recife, o Recife, pelo menos em parte, também está contido na Mustardinha. Poderia contar algumas histórias como quando uma menina, muito faceira, me acompanhou no trabalho por algumas ruas. Ou como encontrei um marceneiro ouvindo música bleque dos anos 60/70, para minha surpresa e satisfação. Ou ainda da minha alegria ao descobrir a sede do famoso Clube Carnavalesco Misto dos Lenhadores.

Muitas são as lembranças. Muitos são os encontros ao longo do dia, a cada dia. Escrevo o que posso ou o que tenho vontade de escrever. E ainda que meus sonhos de amor estejam engessados, tenho minha cidade, tenho minha realidade: meu cotidiano. Estou vivendo percorrendo ruas, encontrando gentes. Fecho os olhos. Acho que quase posso sentir os odores e sons da Mustardinha. E acho que, pelo menos em parte, em alguns momentos, também me encontrei ali.

segunda-feira, 29 de março de 2010

acho que Deborah Colker iria gostar dessa



Talvez vocês já tenham visto esse videoclip pois não é tão novo. O vídeo da música Here It Goes Again é da banda americana Ok Go. Desde que o vi pela primeira vez achei arretado, só não o tinha apresentado aqui no refúgio porque, na época, ainda não sabia como como adicionar vídeo no blogue. Pra mim é o tipo de vídeo que prova que uma idéia pode valer mais que mil efeitos especiais e poses de pop star.

segunda-feira, 8 de março de 2010

uma menina, quase mulher

Não pensei em nada pra escrever nesse Dia da Mulher. Mas vi essas fotos no orkut de Maria Antônia, minha sobrinha e gostei. Ela tá "viajando" com o piercing (ou pírcingue, como se diz em Portugal) que fez na orelha. Amo essa Menina...

terça-feira, 2 de março de 2010

apontamentos de uma louca



4. pra quem já esperou mil anos, esperar mais cem não custa nada. o problema é que quanto mais roço em suas palavras, menos o gozo me permite mentir;

2. gosto de gatos porque são verdadeiramente livres, livres como loucos, loucos de tão livres. livres e livros são pra comer. mas não como gatos, prefiro comer você;

3. às vezes você me irrita, mas quando lembro seus oinho triste, seu rosto cansado, dá vontade de lhe dar colo e lhe chupar (...) até o dia amanhecer;

1. o sentimento vaza como música em minha pele. quero asas pra sublimar o que digo, ao pé-do-ouvido, com meu coração supersônico!;

5. preciso ir, tenho pressa, mas pode crer: gosto de você à beça.

agora segue a música porque a ordem dos fatores não altera esse amor balbuciado. ou seria anunciado? ah, deixa pra lá...

sLy & tHe fAmIlY sToNe - if you want me to stay




sábado, 27 de fevereiro de 2010

Rondó do Capitão

poema: Manuel Bandeira
música: João Ricardo

Bão balalão,
Senhor capitão.
Tirai este peso
Do meu coração.
Não é de tristeza,
Não é de aflição:
É só de esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
A aérea esperança...
Aérea, pois não!
- Peso mais pesado
Não existe não.
Ah, livrai-me dele,
Senhor capitão!



Adoro esse poema e a respectiva versão musical dos Secos & Molhados. Tem a ver com meu momento atual.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

o frevo da quarta-feira de cinzas

De Fazer Chorar
autor: Luiz Bandeira
versão: Eddie



O frevo acima é o frevo dos inconformados com o fim do carnaval. Não sei se vocês curtem. Se não, eu compreendo, juro que compreendo. Acho que só quem nasceu em Pernambuco, ou conhece e gosta de frevo e carnaval, curte, de fato.

Fabinho Trummer e a Eddie; Chico Science (de onde estiver) e a Nação Zumbi; Fred 04 e a Mundo Livre S.A. amam o carnaval e eu amo o carnaval e essas bandas porque além de falarem do universal com muito talento, ainda cantam minha aldeia. Daí minha relação afetiva com esses moços que só conheço de vista - amores platônicos, há mais de uma década, que encontro nas ruas, em lanchonetes, em bares, em filas de cinema e, evidentemente, em shows, seus shows. E neste carnaval, especificamente, ouvir a Eddie tem me dado o maior tesão: o último disco deles não para de tocar lá em casa. Será que sou uma groupie enrustida? (risos).

PS: Pra quem não sabe, groupies são moças que gostam de trepar com músicos de banda. São as famosas tietes que levam a tietagem às últimas consequências...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Erótica. Só minto um pouco...


basta-me um olhar que me deixe nua

entre o último e o primeiro gole

basta-me uma palavra obscena
que embriague a carne úmida

basta-me uma falange e um anel
corrompendo-me entre as coxas

basta-me uma foda macia
e seu cheiro de macho pra levar na calcinha


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Som de Pernambuco -3 (banda Eddie/vídeos)



Som de Pernambuco -3

Eddie - Carnaval no Inferno

Natural de Olinda, a Eddie é uma das bandas mais bacanas que tocam por aqui e por aí afora. Em seu quarto disco, aqueles meninos, que curtiam cinema-praia-futebol, chegaram à maturidade. Da década de 90 pra cá muita coisa aconteceu: a vida machuca e deixa marcas. Mas quando se tem coragem, determinação e leveza, fica mais fácil tocar a vida.

Se no primeiro disco da Eddie, a vida soava mais alegre, neste predomina a melancolia. Mas entenda-se, essa melancolia está mais presente nas letras que nas melodias. Fabinho Trummer (letra/voz/guitarra) e Cia ainda nos faz mexer o corpinho. Pra se ter uma idéia o disco começa logo com um frevo delicioso de cantar e dançar. Daí segue com samba, samba-rock, rock, gafieira-dub (definição minha), um bolero e uma pitada de surf music. Tudo com aquele Original Olinda Style, como define, o próprio Fabinho, o som da Eddie e de outros artistas de Olinda.

Agora você deve estar curioso/a pra saber o que é esse Original Olinda Style. Acertei? Então escuta essa: tem gente que jura que Bob Marley nasceu em Olinda. A quantidade de cannabis sativa que circula por ali... O olindense é relaxado, leve... Diferente do recifense, mais estressado. Arrisco dizer que a leveza que nos resta se deve aos ventos (ou fumaça...) que sopram de Olinda até Recife, ou talvez às marés e, certamente, às linhas de ônibus Rio Doce/Piedade e Barra de Jangada/Casa Caiada que permitem esse saudável intercâmbio cultural, pelo litoral, unindo Olinda, Recife e Jaboatão, cidade vizinha e ao sul de Recife, berço da Mundo Livre S.A. (banda influente no som da Eddie).

Além disso tem o carnaval, né? Essa festa desvairada que o pernambucano faz questão de manter a tradição mas sempre abrindo espaço para o novo. E é justamente em Olinda e Recife onde há a maior concentração de blocos, orquestras de frevo e foliões. E é essa festa, o nosso carnaval, que nos salva, que dá leveza à alma e ajuda a suportar a dureza da vida. Tem até um frevo - entre muitos- que revela o quanto o carnaval é importante em nossas vidas, que diz assim: " É de fazer chorar quando o dia amanhece e obriga o frevo a acabar, oh quarta-feira ingrata, chega tão depressa, só pra contrariar!". Fabinho Trummer, como bom folião, sabe disso. Tanto que já gravou esse frevo com a Eddie, naturalmente naquele estilo original de Olinda.

Aliás, pra quem não sabe, a música "quando a maré encher", gravada pela Nação Zumbi (outra banda que influencia a Eddie) e que ficou famosa na voz da saudosa Cássial Eller, é um frevo da Eddie, um frevo-rock. Fabinho, moço leve e despretensioso, sabe das coisas.


PS 1: na postagem acima vocês viram/ouviram, os vídeos do frevo Bairro Novo/Casa Caiada (nomes de dois bairros de Olinda) e da indignada "eu tô cansado dessa merda" na voz de Karina Buhr (participação especial). Ainda indico a audição do sambinha cafajeste "me diga o que não foi legal" e de "gafieira na avenida". Você pode ouvi-las aqui. Ou melhor, se possível, ouça o disco todinho, todinho. Esse carnaval, ainda que no inferno, é primoroso!

PS 2: perdão, infelizmente pensei que as músicas indicadas acima estavam disponíveis no myspace da Eddie. De todo modo tem outras músicas lá. E no youtube tem outros vídeos.




segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Touche pas à mon pote!



Forças de paz ou forças de repressão?
- uma contra-informação


" A situação é dez vezes pior do que imaginava. Ouvindo uma rádio do Haiti e conversando com amigos jornalistas que estão lá, o cenário é desolador e revoltante. A polícia nacional e as forças de paz estão atirando nas pessoas que vão buscar comida nos hospitais. Estão abrindo fogo contra o povo faminto" (Franck Seguy, professor haitiano)

Franck Seguy e sua esposa, Michaelle Desroisers, são professores da Universidade Estadual do Haiti. Ambos acabaram de concluir mestrado na área de serviço social na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e estavam prontos para voltar ao Haiti, quando souberam do terremoto.

Foto de Franck Seguy, citação e informações: Jornal do Commercio, Recife, 16 de janeiro de 2010.


PS: a expressão francesa que dá nome a esta postagem é o
slogan do movimento SOS Racismo da França e significa, em bom brasileiro, algo como: "Não mexa com meu companheiro!"

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

da indignação

Quando eu tinha por volta dos meus 20 e poucos, até 30 e poucos anos, em ano eleitoral, era capaz de arrumar uma discussão com qualquer pessoa desconhecida que falasse mal do meu candidato e da esquerda. Isso acontecia, basicamente, dentro de algum ônibus urbano, enquanto ouvia a conversa entre dois sujeitos ou duas comadres com aquele tipo de papo conservador e reacionário. De repente meu sangue começava a esquentar até entrar em ebulição. Dizia para mim mesma que daquela vez iria me controlar, mas não tinha jeito, acabava me metendo na conversa com um estilo, digamos: "hay que endurecerse pero sin perder la ternura...". Com o passar dos anos me tornei menos impulsiva mas não menos indignada: Se o Amor é aquele que conhece a Verdade, o Ódio é aquele que pode tomar de assalto a Mentira.

Ando extremamente irritada com a maneira que a imprensa corporativa vem tratando de maneira superficial e parcial - o que não é novidade - a polêmica sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH). Meu aborrecimento chegou a tal ponto que noite passada acordei sobressaltada de um sonho bastante realista no qual brigava com um passageiro de ônibus que criticava o governo exatamente por causa do dito Plano. Remeti-me imediatamente aos meus anos impulsivos... Mas voltando à polêmica, me irrita ver a imprensa falando que "o Plano tem críticas de diversos setores da sociedade" sem deixar claro que esses "diversos setores da sociedade" são apenas a própria imprensa corporativa, a Igreja, os militares, os ruralistas e evidentemente a oposição (leia-se PSDB e DEM), ou seja, as forças mais anti-democráticas e avessas à liberdade, aqueles que sempre estiveram no poder. Enquanto isso, Ongs e entidades de direitos humanos apóiam o PNDH e estão lutando para que não sofra alterações.

Pois bem, estamos em ano eleitoral, Lula já disse que não será o "Lulinha Paz e Amor" na próxima eleição. Espero que assim seja, desde já: Um pouco de Ódio é sempre bem-vindo.